Nicolinas


Guimarães a rufar.
São as festas mais antigas e sui generis de Guimarães. As Nicolinas, celebradas pelos estudantes em honra de São Nicolau, são um fenómeno único de dedicação e tradição. Do ribombar ensurdecedor das caixas no cortejo do Pinheiro às Maçãzinhas, passando pelas Danças e pela crítica mordaz do Pregão. Esta secção mergulha na alma nicolina, explicando a origem dos ritos, a sua ligação ao Liceu e o sentimento de pertença que une gerações de vimaranenses.


Mais do que uma festa, as Nicolinas são um estado de espírito. Únicas no país, estas festividades estudantis mantêm viva uma tradição secular que mistura devoção, transgressão e afirmação juvenil. Ao falarmos das Nicolinas, entramos no coração pulsante desta celebração que define o ADN de Guimarães.
A história das Festas Nicolinas perde-se no tempo, assentando raízes nas celebrações religiosas a São Nicolau, padroeiro dos estudantes. Mas foi no século XIX e XX, em torno do Liceu de Guimarães, que se consolidaram os números que hoje compõem o programa
Aqui analisa-se cada momento do ritual: o Pinheiro, cortejo de abertura onde o toque das caixas e bombos cria uma catarse coletiva incomparável; as Danças de São Nicolau, que misturam teatro e sátira; o Pregão, onde os novos pregoeiros criticam a vida da cidade e do país em latim e vernáculo; e as Maçãzinhas, instrumento de galanteio.
Os textos exploram a organização da Comissão de Festas, a transmissão do saber (dos toques nicolinos, por exemplo) de pais para filhos e a importância das Ceias Nicolinas como momento de saudade e confraternização.
Mas, acima de tudo, tenta-se explicar o inexplicável: a emoção, o bichinho, o sentimento de pertença que faz com que milhares de vimaranenses, novos e velhos, saiam à rua no dia 29 de novembro faça chuva ou faça sol. As Nicolinas são a prova viva da vitalidade da tradição em Guimarães.
Nicolinas:
O culto dos estudantes e o rufar da tradição
História Breve das Festas Nicolinas
Das festas que os estudantes de Guimarães dedicam a São Nicolau se costuma dizer que são muito antigas. Porém, até hoje não foi possível fixar a extensão da sua antiguidade, por não se saber ao certo quando tiveram início. Tem sido levantada a hipótese de terem tido origem no colégio de artes e humanidades que funcionou no Convento da Costa em meados do século XV, que não durou mais do que uma dúzia de anos. A história deste estabelecimento é muito interessante, nomeadamente para o estudo da penetração da cultura humanista em Portugal. Porém, ainda não foi encontrado qualquer documento que o relacione com a introdução em Guimarães do culto a S. Nicolau. Todas as evidências documentadas apontam um pouco mais para trás, no tempo, e na direção de um outro estabelecimento religioso vimaranense com dedicação ao ensino, a Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira.


Programa das Festas Nicolinas
Dias que abalam Guimarães, com a alegria dos estudantes e o troar dos tambores.
O Cortejo do Pinheiro
29 DE NOVEMBRO
É o primeiro acto do programa das festas Nicolinas, acontecendo, desde que há memória, no dia 29 de Novembro. O Pinheiro (ou, mais propriamente, a Entrada do Pinheiro) é um cortejo que traz até à cidade de Guimarães o mastro que se erguerá para anunciar que os estudantes estarão em festa. O seu tronco, que deverá ser o maior que for possível encontrar, é doado aos estudantes por uma família de ricos proprietários rurais, sendo transportado em carros iluminados por lanternas de papel, puxados por juntas de bois. O cortejo é aberto pelo carro de Minerva, com um figurante mascarado, a arremedar a deusa romana da ciência. Atrás do mastro, seguem os estudantes, velhos e novos, executando o toque do Pinheiro, em caixas e bombos.


As Roubalheiras
sem data anunciada
Um dos números menos consensuais do programa das Festas Nicolinas é o das Roubalheiras, que consiste no furto de tabuletas de escritórios e estabelecimentos comerciais, de vasos de flores, de gaiolas com pássaros e de outros objectos que se encontrem à mão de semear. Os objectos retirados pelos estudantes dos lugares respectivos são levados para o Toural, onde ficam em exposição até que os seus proprietários os vão recolher. De todos os números que se fixaram no programa das festas nicolinas, é um dos mais recentes. Ao longo do século XX, foi também o mais intermitente, por força de reprovação pública, de proibições e de auto-censura dos estudantes.


As Posses
4 DE DEZEMBRO
As Posses são uma manifestação festiva e jovial em que os estudantes recolhem as oferendas que irão partilhar no magusto se lhe seguirá. Saem à rua na noite de 4 de Dezembro, fazendo-se anunciar pelo estralejar de foguetes. Abre-o uma charanga, que executa o Hino Escolástico, ao som do qual os estudantes ora marcham ordenada e compassadamente, alinhados com as mãos sobre os ombros uns dos outros, ora correm desalmadamente, de mãos dadas, por entre a multidão que os acompanha. O caminho que percorrem leva-os às casas onde lhes prometeram posses, a reclamá-las, num grito em uníssono: “ Venha a Posse! Venha a posse!”.


O Magusto
4 de dezembro
O magusto é o momento das festas em que os estudantes procedem à distribuição das dádivas recolhidas na noite do dia 4 de Dezembro, durante a romagem das posses pelas ruas de Guimarães. Acontece tarde, muitas vezes já no início da madrugada do dia 5. Por definição, segundo Rafael Bluteau (1736), magusto é “o chão em que assam muitas castanhas, ou as mesmas castanhas, assadas debaixo de brasas”. Assim era o magusto das Nicolinas. Com o mato que lhes ofereciam os oleiros da Cruz de Pedra, os estudantes acendiam uma fogueira junto ao pinheiro, onde assavam castanhas que depois distribuíam pelos que aparecessem, acompanhadas de vinho e aguardente.


O Pregão
5 DE DEZEMBRO
Rafael Bluteau define pregão com a “publicação de qualquer coisa que convém que todos saibam”, sendo sinónimo de bando. O Pregão ou Bando Escolástico, que tem lugar na tarde do dia 5 de Dezembro, véspera de S. Nicolau, serve para anunciar publicamente as festividades do dia seguinte. Faz-se anunciar pelo toque de caixas e bombos e compõe-se de um pequeno cortejo que é acompanhado por estudantes, a pé e a cavalo, com o pregoeiro (o membro da comissão que foi escolhido para dizer o pregão) a ser conduzido num vistoso carro puxado por cavalos, até aos diferentes locais onde iria executar a sua função.


A Entrega das Maçãs (Maçãzinhas)
6 de dezembro
6 cortejo da entrega das maçãs, ou as Maçãzinhas, remete-nos para a antiga renda a que os coreiros da Colegiada tinham direito, que deveria ser retirada dos dízimos de Urgezes. Era um cortejo de carros alegóricos, composto por estudantes mascarados, muitos deles a cavalo, que animavam as ruas de Guimarães com as suas danças e folias, para além de cortejaram as moças que os aguardavam em janelas e varandas. Estas danças, que também eram chamadas de bailes ou encamisadas, são, de todas as manifestações festivas dedicadas pelos estudantes de Guimarães ao seu santo padroeiro, as mais antigas de que há memória.


O Baile
7 DE DEZEMBRO
O baile, que actualmente estende as Festas Nicolinas por mais um dia e é apresentado como o número de encerramento das festas, é uma incrustação recente no programa das festas, uma inovação que tardou a tornar-se consensual (“O baile nunca fez parte das Nicolinas”, afirmou Hélder Rocha em finais de Novembro de 1993, numa entrevista ao jornal O Povo de Guimarães). Para lá de toda a retórica romântica que tem sido utilizada para lhe dar significado, o baile das Nicolinas tem, na sua origem, uma intenção bem terrena, a necessidade de angariação de receitas para custear as despesas das festas.




Outros Números
29 DE NOVEMBRO
No essencial, os números que compõem o programa das Festas Nicolinas foram fixados no ressurgimento de 1895, que deu continuidade os que já se realizavam antes (entrada do pinheiro, novenas, posses, magusto, pregão, danças e entrega das maçãs), acrescentando-lhe um novo, as roubalheiras, a que começaram por chamar rapto de tabuletas. Ao longo do século seguinte, ensaiaram-se alguns números novos, mas apenas um acabaria por se fixar no programa oficial das festas, o baile de encerramento, assumindo especial relevância na angariação de receitas para o sustento das Festas.
Personalidades nicolinas
Figuras que de destacaram pela sua participação nas festas e na transmissão e renovação da tradição nicolina.
joão evangelista de morais sarmento
1773-1826
antónio joaquim de almeida gouveia
1816-1915
bráulio lauro pereira da silva caldas
1865-1905
ana joaquina de magalhães aguiar, a Senhora aninhas
1860-1948
Lugares nicolinos
Espaços ligados à memória e às tradições dos estudantes de Guimarães e das suas festas centenárias.




O Colégio das Artes e Humanidades da Costa
Depois de estudar em Paris e em Lovaina, onde se doutorou em Teologia, o padre Jerónimo D. Diogo de Murça regressou ao mosteiro da Penha Longa, em Sintra, onde professara. Pretendendo aperfeiçoar a instrução dos membros da sua congregação, convenceu o rei D. João III a fundar, naquele convento, um colégio de humanidades e artes. Instituído em 1535, o colégio foi transferido para o convento da Costa, em Guimarães, onde já estava a funcionar em Setembro de 1537.
O ensino secundário em Guimarães
O ensino secundário público em Guimarães foi instituído em 1774, quando o Marquês de Pombal criou uma cadeira de latim que iria funcionou até à aposentação, em 1869, do seu último titular, Francisco Pedro da Rocha Viana, o célebre professor Venâncio. Daí em diante, o vazio foi sendo preenchido por colégios particulares.




O Chafariz do Toural
O imponente chafariz do Toural foi mandado instalar em 1587, para satisfazer necessidades de abastecimento público de água. Tem por base um grande tanque circular, em cujo centro se ergue uma coluna ornamentada, que sustenta duas taças redondas. A primeira com seis bicas que brotam de carrancas; a segunda, mais pequena, com quatro bicas jorrando de cabeças de anjos. Várias tradições o ligam às festas dos estudantes de Guimarães.
A capela de S. Nicolau
A construção da capela de S. Nicolau foi objecto de um contrato assinado no dia 21 de Novembro de 1661 entre os mordomos da confraria de S. Nicolau da Vila de Guimarães e Domingos Lourenço, mestre de pedraria, da freguesia de Estorãos do concelho de Montelongo, hoje Fafe. O segundo comprometia-se a fazer uma capela dedicada a S. Nicolau, na igreja da Colegiada, “junto à porta travessa de contra a rua de Santa Maria no quintal do sacristão”.
Associações nicolinas
Colectivos que acolhem e transmitem a tradição, as vivências e o modo de ser nicolino.




A AAELG/Velhos Nicolinos
No início da década de 1950, o Liceu de Guimarães tinha poucos alunos, na sua maioria demasiado jovens para assegurarem plenamente todos os números do programa das Festas Nicolinas (apenas ministrava os dois ciclos iniciais, que se concluíam no 5.º ano). As Nicolinas precisavam da ajuda dos Velhos, que iam sedimentando o hábito de se juntarem na noite do Pinheiro.
Das tertúlias nicolinas à ACFN
As Festas Nicolinas têm duas dimensões paralelas. Uma é povoada por jovens estudantes, que aprendem o sentido das festas e se envolvem nelas, por dever e diversão, porque aquela é a hora dos novos; a outra é a dos antigos estudantes, aqueles cuja hora já foi, ficando a nostalgia do tempo em que rompiam as calças no banco de escolas, que se acumula quando Novembro chega ao fim, os dias em que bate mais forte nos velhos uma saudade com a banda sonora de baquetas e maçanetas a retumbar.
As Nicolinas nas Memórias de Araduca




































