Em Guimarães, somos todos historiadores. (Diuner de Guimarães)

Um projecto do capitão pina

O Mosaico do Toural

No mosaico do Toural, a polémica nasceu de um detalhe. No centro da composição original figuravam uma cruz e uma espada, inscritas numa oval e articuladas com círculos concêntricos. Um motivo discreto, integrado num desenho geométrico mais amplo, mas que desencadeou leituras exaltadas e disputas pessoais. A controvérsia diz mais sobre o clima político e humano da época do que sobre o próprio mosaico.

Guimarães, 1928

Uma cruz no chão do Toural

Quando, em Dezembro de 1928, a imprensa vimaranense se inflama em torno do desenho do mosaico da Praça de D. Afonso Henriques — o Toural —, o motivo ostensivo da polémica parece simples: a presença de uma cruz num pavimento público, destinado a ser pisado, sujo e atravessado quotidianamente. O argumento é apresentado como uma questão de respeito religioso, de bom senso e até de estética decorativa. Contudo, uma leitura atenta dos textos publicados e do contexto político do momento mostra rapidamente que a controvérsia extravasa largamente o domínio da arte ou do simbolismo cristão.

O autor do projecto do mosaico, Luís Augusto de Pina Guimarães, não era um artista ocasional nem um técnico neutro. Oficial do Exército, republicano convicto e figura activa na vida cívica de Guimarães, Pina concebera para o Toural um programa decorativo que procurava dialogar com a memória fundacional da cidade e com a figura de D. Afonso Henriques. Nesse quadro, a presença da cruz surge integrada no escudo afonsino — não como símbolo devocional isolado, mas como elemento heráldico e histórico.

A reacção inicial parte de A. L. de Carvalho, que, num artigo publicado no Echos de Guimarães a 1 de Dezembro de 1928, denuncia o que considera ser um erro grave de arte e de senso. A cruz, afirma, é um símbolo respeitável que não deve ser colocado “onde é calcado aos pés, sujeito ao lixo, ao escarro”. Não invoca explicitamente a fé pessoal nem o zelo religioso, mas alega falar em nome de princípios estéticos universais e de um respeito cultural largamente partilhado numa cidade “tão piedosa e apregoadamente católica”.

A rapidez com que outros órgãos de imprensa ecoam esta posição — nomeadamente O Comércio de Guimarães — mostra que o argumento encontra terreno fértil. A cruz no chão é apresentada como uma quase-profanação, ainda que se ressalve, em tom conciliador, que não terá havido intenção ofensiva por parte do autor do desenho. A crítica instala-se, assim, num registo moralizante: compreende-se o artista, mas condena-se a infelicidade da solução.

Este enquadramento, porém, revela-se frágil quando observado à luz da própria tradição artística e simbólica cristã. Cruzes gravadas em pavimentos, lápides funerárias, igrejas de planta cruciforme e espaços sagrados onde o símbolo é literalmente pisado pelos fiéis fazem parte de uma longa história visual do cristianismo. A indignação selectiva de 1928 não nasce, portanto, de um princípio universal, mas de uma escolha circunstancial.

É aqui que o contexto político se torna decisivo. Em 1928, Portugal vivia já sob a ditadura saída do golpe de 28 de Maio de 1926. As antigas clivagens da Primeira República não desapareceram; reorganizaram-se. Em Guimarães, como noutras cidades, antigas figuras do republicanismo laico e anticlerical procuravam reposicionar-se, ensaiando aproximações aos sectores católicos e conservadores, agora mais próximos do novo poder. A súbita centralidade da “sensibilidade religiosa” no discurso de A. L. de Carvalho não passa despercebida quando confrontada com o seu passado recente de combate frontal à Igreja e ao clericalismo.

A cruz no mosaico do Toural funciona, assim, como detonador simbólico de uma tensão mais profunda. Não está em causa apenas um motivo ornamental mal colocado, mas a disputa por legitimidade moral e política num tempo de transição. A crítica estética serve de cobertura respeitável a um conflito de coerências, fidelidades e trajectórias pessoais divergentes.

O início da polémica estabelece, portanto, os termos de um debate que rapidamente deixará de ser sobre arte. A partir daqui, a discussão endurece, personaliza-se e convoca autoridades, pareceres técnicos e memórias antigas. O que se segue já não é apenas uma troca de argumentos, mas uma luta pelo controlo do sentido público da obra — e, em última análise, da própria narrativa sobre Guimarães, o seu passado e o seu presente.

A cruz e a espada (imagem gerada por IA)

Autoridade estética e estratégia política

O "plebiscito dos especialistas"

Após a resposta violenta e extensamente argumentada de Luís Augusto de Pina Guimarães à crítica inicial de A. L. de Carvalho, a polémica em torno do mosaico do Toural entra numa nova fase. Já não se trata apenas de uma troca de opiniões na imprensa, mas da tentativa deliberada de transformar a divergência num juízo de autoridade. Para esse efeito, A. L. de Carvalho promove aquilo a que o próprio texto chama, com ironia involuntária, um “plebiscito” de especialistas.

O procedimento é claro: recolher pareceres de figuras com capital simbólico nas áreas da arte, da arquitectura e da decoração — professores, críticos, arquitectos, técnicos municipais — e apresentá-los como prova definitiva da impropriedade estética e simbólica da obra. A discussão deixa assim o terreno movediço da opinião individual para se instalar, ao menos em aparência, no domínio objectivo das “regras da arte”.

À primeira vista, o método parece irrepreensível. Quem melhor do que artistas e técnicos para julgar uma obra artística? Contudo, uma leitura atenta dos depoimentos revela que a unanimidade construída é menos espontânea do que parece e que a própria formulação das perguntas condiciona fortemente as respostas. A questão central é quase sempre colocada nos mesmos termos: é ou não próprio colocar uma cruz num pavimento destinado a ser pisado pelo público? A resposta, assim enquadrada, tende inevitavelmente para a reprovação.

O parecer de Abel Cardoso, pintor e professor de desenho, estabelece o modelo discursivo dominante. Invocando princípios gerais da composição decorativa — selecção dos motivos, adequação ao suporte, simplicidade, legibilidade e escala — conclui que o desenho do mosaico não obedece às “regras dos Mestres”. Mas o próprio texto introduz uma nuance reveladora: a cruz enquanto figura geométrica não é, em si, problemática; torna-se problemática apenas quando lida como símbolo religioso. A ambiguidade entre forma e símbolo, central na defesa de Pina, é aqui reconhecida, mas rapidamente neutralizada.

Os pareceres seguintes reforçam a mesma linha, variando sobretudo o tom. Alfredo Guimarães adopta um discurso mais elaborado, referindo leituras especializadas e conceitos de unidade ornamental, mas chega a conclusões semelhantes, sublinhando a falta de homogeneidade do conjunto e a desproporção da espada em relação à cruz. O arquitecto José Luís Ferreira é mais peremptório, classificando a composição como “imbecilidade decorativa” e a cruz como elemento mesquinho e deslocado. O decorador José Ribeiro de Freitas, apesar de reconhecer a intenção românica do conjunto, considera o emblema “impróprio para estar no chão e em posição horizontal”.

Apesar das diferenças de estilo, todos os pareceres convergem num ponto essencial: a cruz é tratada como símbolo religioso sensível, cuja colocação no pavimento viola uma norma tácita de respeito. O que raramente se discute é a natureza específica da cruz representada — a cruz heráldica do escudo afonsino — ou a legitimidade histórica da sua associação ao espaço do Toural, dominado pela estátua do fundador da nacionalidade. A leitura simbólica é deliberadamente unívoca.

Mais revelador ainda é o contexto relacional destas intervenções. Os especialistas não surgem de forma aleatória: pertencem a círculos culturais, profissionais e, em alguns casos, políticos próximos de A. L. de Carvalho. A escolha dos pareceristas, tal como a publicação encadeada dos seus depoimentos, constrói um efeito de consenso que funciona menos como avaliação imparcial e mais como instrumento de pressão pública.

É neste ponto que a polémica deixa definitivamente de ser um debate artístico. A invocação das “regras da arte” serve para mascarar um conflito mais profundo: o isolamento simbólico de um adversário político que se recusa a adaptar o seu discurso e a sua prática ao novo clima ideológico do pós-28 de Maio. A estética torna-se linguagem de combate, e a autoridade técnica, um meio de legitimação.

A reacção de Luís de Pina a este “plebiscito” — que virá a público nos textos seguintes — confirma esta leitura. Longe de aceitar serenamente a crítica especializada, o autor do mosaico denuncia a selecção interessada dos pareceres, expõe contradições internas e devolve a acusação no mesmo plano: o da incoerência moral e política. Ao fazê-lo, desmonta o mito da neutralidade técnica e recoloca a discussão no terreno onde sempre esteve, ainda que disfarçada: o da luta por hegemonia cultural e simbólica numa cidade em transição.

No terceiro e último artigo desta série, veremos como esta polémica se resolve — ou se esgota — e que memória deixou no espaço urbano e na história cultural de Guimarães. O mosaico do Toural, mais do que uma obra decorativa contestada, emerge como testemunho material de um momento de fratura, em que arte, política e identidade local se cruzaram de forma particularmente intensa.

O Toural, com o mosaico, em meados da década de 1950, (imagem tratada digitalmente por IA)

Política, coerência e memória

O fim da polémica e o que ela revela

Na fase final da polémica em torno do mosaico do Toural, o tom da discussão altera-se visivelmente. Depois do ataque inicial, da resposta violenta do autor da obra e do “plebiscito” de especialistas promovido por A. L. de Carvalho, instala-se um certo cansaço discursivo. A imprensa começa a dar sinais de saturação, apelando à concórdia e ao bom senso, como se a controvérsia tivesse ultrapassado os limites do razoável. No entanto, é precisamente neste momento de aparente apaziguamento que se torna mais claro o verdadeiro alcance do conflito.

Os textos publicados a partir de meados de Dezembro de 1928 revelam uma dupla estratégia. Por um lado, alguns jornais procuram recentrar o debate numa linguagem conciliadora, sublinhando que não está em causa o mérito artístico global do autor nem uma intenção de ofensa religiosa. Por outro, insiste-se na necessidade de “modificar” o motivo contestado, apresentando essa alteração como gesto de sensatez colectiva e de respeito pelo sentimento público. A solução técnica surge, assim, como saída honrosa para um impasse que é, na verdade, político e simbólico.

É neste contexto que Luís Augusto de Pina Guimarães intervém uma última vez, num texto que rompe deliberadamente com o tom moderado que começa a dominar a imprensa. A sua resposta final — mordaz, sarcástica e carregada de referências culturais — funciona como um ajuste de contas público. Pina recusa a narrativa da conciliação fácil e expõe aquilo que considera ser a hipocrisia do processo: a instrumentalização do sentimento religioso por quem, no passado recente, fizera do anticlericalismo uma bandeira.

Ao evocar exemplos abundantes do uso quotidiano e histórico da cruz — em moedas, sepulturas, pavimentos de igrejas, jugos de bois, contratos assinados por analfabetos — Pina não se limita a defender o seu desenho. Procura demonstrar que o escândalo fabricado em torno do mosaico do Toural é selectivo e oportunista. A cruz, sugere, só se torna subitamente intocável quando convém a uma determinada estratégia discursiva. Onde não há intenção de profanação, insiste, não pode haver crime.

Este momento é decisivo porque cristaliza a divergência fundamental entre os dois protagonistas. De um lado, A. L. de Carvalho surge como figura em trajectória de adaptação, procurando reposicionar-se num novo quadro político e moral, mais favorável à aproximação aos sectores católicos e conservadores do regime saído do 28 de Maio. Do outro, Luís de Pina mantém uma linha de coerência republicana, laica e historicista, recusando abdicar de uma leitura simbólica que separa o plano religioso do plano heráldico e cívico.

A polémica encerra-se, formalmente, com decisões administrativas da Câmara Municipal e com o progressivo desaparecimento do tema das páginas dos jornais. Não há vencedor declarado. O mosaico permanece como obra executada, ainda que sob a sombra de uma contestação pública que o marcou desde a origem. A cidade segue em frente, como quase sempre acontece após disputas intensas, deixando que o tempo dilua os excessos verbais e as feridas pessoais.

Contudo, o episódio deixa um rasto significativo. O debate sobre o mosaico do Toural revela como, em Guimarães, a arte pública nunca foi neutra. Espaços centrais, símbolos fundadores e intervenções urbanas funcionam como palcos privilegiados de disputas identitárias. Em 1928, discutir uma cruz no chão era, na realidade, discutir quem tinha autoridade para definir o sentido da memória local e quem estava disposto a pagar o preço da coerência num tempo de transição política.

Vista à distância, a polémica ganha valor histórico precisamente porque o seu pretexto é, como bem observaste, largamente irrelevante. A intensidade da discussão não se explica pela gravidade do gesto artístico, mas pela animosidade pessoal e pelas trajectórias divergentes dos seus protagonistas. O mosaico do Toural transforma-se, assim, num documento material de um momento de fratura — um vestígio urbano onde se cruzam estética, política, moral e memória.

É talvez por isso que, quase um século depois, a discussão continua a merecer ser lida. Não para reabrir velhas querelas, mas para compreender como as cidades se escrevem também através dos seus conflitos, e como o chão que se pisa diariamente pode guardar, em silêncio, as marcas de debates que foram tudo menos silenciosos.

A. L. de Carvalho (imagem gerada digitalmente por IA)

O início da polémica

Uma cruz no chão do Toural

O texto que se segue, publicado no Echos de Guimarães a 1 de Dezembro de 1928, inaugura a polémica em torno do desenho do mosaico da Praça de D. Afonso Henriques (Toural), então em execução. O seu autor, A. L. de Carvalho, critica duramente a colocação de uma cruz no pavimento da praça, invocando razões de estética e de respeito simbólico. A leitura deste texto deve ser feita à luz do contexto político e pessoal do momento, desenvolvido nos artigos de enquadramento que acompanham esta publicação.

Mosaicos do Toural
Desenhos que atentam contra as regras da estética e do simbolismo cristão

Chamaram a nossa atenção para os desenhos do mosaico na Praça de D. Afonso Henriques, que há meses ali se vêm colocando.

Não se conforma o meu autorizado informador com a liberdade adoptada pelo autor do referido desenho, fazendo reproduzir no chão duma praça pública símbolos respeitáveis, como sejam — a Cruz.

Não é o prurido católico que beliscou o meu informador. Tratando-se de um escudete com a Cruz e a Espada, o reparo do crítico deriva dum condicionalismo de arte, que diz, e muito bem, não autoriza a aplicação de certos símbolos em lugares que são calcados aos pés, sujeitos ao lixo, ao escarro e, portanto, ao desrespeito.

Fui ver a… profanação. E a obra, já de si mal-executada — se não mal desenhada! — não chega sequer a ter inspiração, dado o contraste entre a espessura da Cruz com a magreza da Espada; o que levou um mirone que junto de nós estava a supor tratar-se de um simbolismo do Calvário.

Descontando o exagero desta interpretação, não deixa de ser pitoresco o comentário; e nós preferíamos que não houvesse motivo para estas críticas, reflectindo-se na responsabilidade destas obras públicas.

A posição da Cruz, que é, em qualquer hipótese de fé religiosa, um símbolo de redenção humana, pede, segundo as mais severas regras da arte, posição diversa daquela que tem no mosaico da Praça de D. Afonso Henriques, excepção daqueles lugares sagrados em que esse símbolo é tampa de caixão ou jazida mortuária.

Em tais casos, não pisamos esse motivo ornamental, que é dum simbolismo exaltado e reverente; custando-nos a conceber que agora o venha a fazer a população da nossa terra, tão piedosa e apregoadamente católica!

Repito, pois: erro de arte e erro de senso semelhante desenho.

A. L. de Carvalho

Ecos de Guimarães,  1 de Dezembro de 1928

Neste artigo, A. L. de Carvalho fixa os dois eixos centrais da polémica a leitura da cruz como símbolo exclusivamente religioso; e a ideia de que o pavimento público é, por natureza, um espaço impróprio para esse símbolo. Ambos os pressupostos serão frontalmente contestados por Luís de Pina Guimarães, autor do mosaico, na resposta publicada no número seguinte do mesmo jornal, monárquico e conservador.

O Capitão Luís de Pina Guimarães (imagem gerada digitalmente por IA)

Eco imediato

No chão, para todos calcarmos, não!

Publicado três dias depois do artigo de A. L. de Carvalho, este texto d’O Comércio de Guimarães confirma que a crítica à cruz desenhada no pavimento do Toural encontrou rápida adesão num sector da imprensa local. O tom é mais moderado do que o do Echos de Guimarães, mas a conclusão é idêntica: considera-se infeliz — e ofensiva para o sentimento religioso — a colocação da cruz no chão, ainda que se recuse atribuir intenção irreverente ao autor do desenho.

Justo reparo

Chamam a nossa atenção para uns reparos que o distinto escritor, o Sr. A. L. de Carvalho, fez sobre uns desenhos que foram feitos no mosaico da Praça D. Afonso Henriques.

Somos como S. Tomé. Fomos ver, pois nos custava acreditar que o símbolo da religião — a Cruz — fosse colocada em lugar tão irreverente.

Nós fazemos a justiça merecida ao autor do desenho, acreditando que não foi por falta de respeito ou como ofensa à religião.

Mas deixem-nos dizer que aquele desenho é de uma grande infelicidade e precisa de ser alterado.

Uma Cruz, qualquer que seja o significado que queiram dar-lhe, é sempre o símbolo de uma religião, e como tal deve colocar-se onde possa ser respeitado.

No chão, para todos calcarmos, não!

A opinião católica sentir-se-ia ofendida se não fosse alterado aquele desenho, que mais parece uma profanação — o que, voltamos a repetir, não acreditamos.

O Comércio de Guimarães, 4 de Dezembro de 1928

Este texto consolida uma leitura moral do problema, deslocando o debate da esfera estritamente estética para a do sentimento religioso colectivo. A distinção entre intenção do autor e efeito público da obra torna-se um argumento recorrente e prepara o terreno para a resposta do autor do mosaico, que surgirá poucos dias depois.

Recorte do jornal Ecos de Guimarães, de 15 de Dezembro de 1928

O “plebiscito dos especialistas”

A. L. apela ao argumento da autoridade

Publicado no Echos de Guimarães de 15 de Dezembro de 1928, este conjunto de textos constitui a resposta organizada de A. L. de Carvalho à violenta réplica do autor do mosaico do Toural. O método escolhido é significativo: em vez de uma contra-réplica directa, Carvalho promove a divulgação de pareceres de quatro “especialistas” — um professor de desenho, um crítico de arte, um arquitecto e um decorador — todos desfavoráveis à obra.

Estes depoimentos devem ser lidos não apenas como juízos estéticos, mas como um dispositivo de autoridade cuidadosamente construído, destinado a isolar publicamente o autor do projecto, Luís Augusto de Pina Guimarães, num momento de forte tensão política e pessoal.

Abel Cardoso apresenta-se explicitamente como professor e baseia o seu parecer na invocação das “regras gerais da composição decorativa”, assumindo um tom pedagógico que confere autoridade técnica à crítica.

Alfredo Guimarães, que escreve na condição de crítico de arte, teve um percurso paralelo ao de A. L. de Carvalho, na transição da Primeira República para a Ditadura, desenvolve um parecer mais elaborado, com referências bibliográficas e distinção entre diferentes zonas do mosaico, mas conclui igualmente pela reprovação da obra.

Por seu turno, José Luís Ferreira, arquitecto, emite parecer mais lacónico e agressivo do conjunto, usando uma linguagem pouco técnica e fortemente depreciativa, o que revela bem o clima emocional que envolveu a polémica.

Finalmente, José Ribeiro de Freitas, apresentado como decorador, responsável pela concepção dos canteiros do jardim do Toural em 1911, introduz críticas detalhadas ao conjunto ornamental e reafirma a impropriedade simbólica da cruz no pavimento, fechando o ciclo dos pareceres negativos.

O MOSAICO DO TOURAL
Reprovam os seus desenhos, quem tem autoridade para o fazer!

Os depoimentos de Abel Cardoso, Alfredo Guimarães, José Luís Ferreira e José Ribeiro de Freitas.

As duas colunas de carrancuda prosa que sob o título — O Mosaico do Toural —, aqui foram publicadas no último número como "troco" ao meu despretensioso artigo sobre o mesmo assunto teriam justificação se seu autor se limitasse à defesa da sua linda obra. Como porém este se excedesse até ao ponto de... perder a cabeça, dizendo coisas destinadas a um bilioso propósito pessoal de enxovalho e insulto, patenteou-se assim a sem razão daquela suja prosa, de passo que se revelou, mais uma vez, a meu incivilidade duma criatura com quem é pouco proveitoso manter relações.

Não cometendo, por minha vez, a feia acção de me desonrar e, simultaneamente, desprestigiar o jornal que acolhe esta minha lavada prosa, renuncio por isso ao prazer vulgar da desforra — sacrifício que ofereço em homenagem aos filhos e irmãos do desvairado funcionário municipal.

E, dito isto, cinjamos-nos ao assunto que interessa o nosso público: — O mosaico do Toural.

Uma esplêndida "lição" pelo professor Abel Cardoso que fortalece a razão do meu reparo:

Uma esplêndida "lição" pelo professor Abel Cardoso que fortalece a razão do meu reparo:

"Meu Amigo: - se não colide a liberdade do meu parecer de Artista e Professor com algum sentimento de amizade pessoal com o autor do desenho do mosaico do Toural, peço-lhe a fineza de responder a estas duas perguntas, autorizando-me a reproduzi-las:

- O chão que se destina a ser pisado pelo público é ou não lugar próprio para nele se reproduzir uma cruz, embora numa pretensa combinação heráldica?

-Quer ter a bondade de exteriorizar o seu pensamento relativamente ao desenho desse mosaico no Toural?

De V. Adm.or – A. L. de Carvalho

Guimarães, 11 de Dezembro 1928

Amigo A. L. de Carvalho:

Desde que V. invoca a minha qualidade de professor, não poderia eu, senão atraiçoando essa qualidade, recusar-me a dar-lhe o meu parecer, muito lealmente, acerca do desenho do mosaico do Toural, com a franqueza e simplicidade com que o faria aos meus humildes alunos do curso ornamental.

De resto, não me parece que a opinião dum professor, que no presente caso se limitará a reproduzir algumas regras gerais da composição decorativa, podendo, em face delas, analisar-se conscientemente o desenho em questão, não me parece, dizia eu, que essa opinião vá magoar o meu velho e estimado amigo Capitão Luís de Pina, porquanto em coisa alguma ela desmerece as suas superiores qualidades de Artista de real merecimento, continuando, consequentemente, credor de minha admiração.

Posto isto, vamos ao caso. Dizem os Mestres decoradores que:

1.º — O Artista deve operar uma selecção inteligente na escolha dos motivos decorativos. E reprovam os casos em que, por exemplo, a Renascença mistura cenas mitológicas e bacanais com assuntos bíblicos e religiosos.

2.º — Cada motivo decorativo tem o seu lugar próprio. E assim, deve o Artista distinguir os motivos adequados à ornamentação de paredes ou tectos, dos que se podem aplicar aos pavimentos; e ainda, os que ocupam os lugares de honra, dos que ornamentam os lugares secundários. Para essa distinção tem o Artista a Natureza por guia e a razão por conselheira.

3.º — A simplicidade, rigorosamente compreendida, constitui a maior beleza da Arte.

4.º — A ornamentação deve ler-se ao primeiro golpe de vista, sem esforço ou dificuldade. Nada de complicações, de sobreposições, de transições bruscas de formas onduladas para formas secas e angulosas que transtornam a harmonia do conjunto.

5.º — Deve ter-se em muita atenção, a bem da harmonia do mesmo conjunto, a escala entre os motivos decorativos.

E basta.

Pergunta-se: Obedece o desenho do mosaico do Toural a estes conselhos dos Mestres e que os livros da especialidade registam como valiosíssimos preceitos a observar e preciosas regras de arte a seguir?

— Não obedece.

Os espaços destinados, exclusivamente, ao piso público, não são lugares próprios para receberam ornamentações que representem determinados emblemas ou símbolos religiosos, como a Cruz, o Cálix, a Hóstia, etc, ou cívicos como a Bandeira Nacional, Brasões Ilustres, etc. Igualmente, e pelos mesmos princípios de respeito mútuo que nos devemos, não ornamentaríamos os referidos espaços com nomes de cidadãos consagrados. Ainda bem que ali não há tais nomes.

É claro que a figura geométrica que resulta de duas rectas, que se cortam perpendicularmente, pode chamar se uma cruz.

Há porém que distinguir: com aquela figura geométrica, não como emblema religioso, (e todos nós, sem excepção, sabemos bem quando ela representa um símbolo religioso, uma ornamentação profana, um sinal aritmético, uma assinatura, etc., poderemos tirar belíssimos partidos decorativos em qualquer lugar.

* * *

Quanto ao conjunto do largo, também não me parece que o meu ilustre amigo Capitão Pina observasse os preceitos expostos:

A multiplicidade de elementos empregados, não direi a esmo, mas não obedecendo a uma finalidade bem definida, transtorna e compromete a harmonia do conjunto e do próprio estilo românico que ali quis adoptar.

Os quatro dísticos às entradas do largo, os quais, pela posição em que se encontram, mais podem considerar-se às saídas do mesmo largo, estão fora da escala, tornando-se a sua leitura extremamente difícil, o que, segundo os referidos preceitos que eu perfilho e cuja doutrina acato em absoluto, por criteriosa, constitui igualmente um erro.

Mas - amigo Carvalho, quem não erra neste mundo?

Se aqueles que sempre se dedicaram à carreira artística, consagrando-lhe o melhor de todos os momentos em aturados estudos, praticam às vezes, erros imperdoáveis, como não havemos de desculpar o meu amigo Capitão Luís de Pina que evidentemente, e quem sabe se com grande pesar seu, não pôde, em virtude, talvez, da árdua carreira das armas que abraçou com tanto brilho, canalizar e consolidar em bases seguras, por meio de uma cultura apropriada e especial, o seu indiscutível temperamento artístico?

O Capitão Pina é razoável e estou certo de que, agora, com mais calma, vai modificar, com vantagem para todos nós e para ele, pelo menos o malfadado motivo que originou o seu justo reparo.

E não sofrerá grandemente o cofre municipal com a modificação.

E... não me pergunte mais nada sabre o assunto em debate, que já estou cansado para prelengas desta natureza, fora da minha Escola.

Amigo velho

Abel Cardoso.

A opinião de um crítico de arte que tem os diplomas da Associação dos Arqueólogos e da Sociedade dos Escritores Portugueses

Meu caro Alfredo:

Tu que, por amor às Belas-Artes, te fizeste aluno dos Mestres, ouvindo-lhe as prelecções; tu que, desde longe, tens dado ao teu espírito uma cultura artística apaixonada, criando-te uma sensibilidade estética apreciável, estás, portanto, no caso de, com autoridade, dizeres algo sobre a seguinte pergunta que, neste mesmo momento, estou fazendo a outras individualidades da nossa terra, com o propósito de reproduzir:

- O desenho do mosaico do Toural, nomeadamente aquele que reproduz a cruz, satisfaz as regras da Arte?

Aguardo com interesse a tua resposta que acompanharás com a devida autorização para tornar pública.

Teu velho amigo

A. L. de Carvalho.

Meu querido Amigo:

Respondo, como desejas, à pergunta da tua carta.

O trabalho decorativo, em mosaico, da parte central da praça dr D. Afonso Henriques, pode e deve dividir se em três partes - a placa que envolve a base do monumento, de um espírito orientalista mais ou menos puro; o ornato médio, sem caracterização artística determinável; e, finalmente, a aplicação do escudo afonsino, historicamente garantida, embora talvez discutível sob o ponto de vista da sensibilidade religiosa de cada um. E disse que deve dividir se em três partes por virtude de o próprio trabalho, na sua clara ausência de homogenia, assim o ter determinado.

A placa que envolve a base do monumento produz indiscutível efeito; e tanto ou tão pouco que, se não tivesse havido, como houve, ao realizar os passeios circundantes, a preocupação de recorrer [a] motivos decorativos do trabalho do insigne Soares dos Reis - preocupação aliás digna de ser continuada e que inexplicavelmente se interrompeu — aquela porção de obra resultaria, no conjunto, perfeita sugestão a quem a observasse. Podia o seu autor ter utilizado ali o ornato românico da primeira moldura do pedestal, dando assim, como já indiquei, maior unidade ao seu trabalho? Podia, e com certeza com resultados eficientes. Isso, porém, é, mais do que outra coisa, uma questão de gosto individual, não querendo, portanto, dizer que o seu autor não estivesse no direito de aplicar aquilo que aplicou.

Sobre a segunda parte, a do ornato que te reveste a quase totalidade do pavimento referido, e que deveria, por espírito de unidade, de derivar do motivo anteriormente realizado, sobre essa parte é que não estou, ou não posso e não devo estar em natureza alguma de concordância com o autor. Tudo ali contraria os mais sólidos princípios da obra ornamental em semelhante género. A aplicação do mosaico, repito, exige a reunião de formas decorativas tão familiares como proporcionadas. Ora é isso, justamente o que ali falta, pois a ausência de relação de carácter, medida e movimento, são neste passo da obra tão claras como lamentáveis.

Aqui viria grandemente a propósito a transcrição de umas páginas de Lutien Magne sobre a decoração do mosaico (L. M. — "Décor du Verre"), se elas não obrigassem a uma leitura demasiado longa e não fossem de certo modo incompletas sobre o conhecimento do texto anterior. Mas fica indicada a obra.

Pelo que se relaciona com a aplicação do escudo afonsino, somente tenho a lamentar que não tivesse sido procurada uma outra dimensão para semelhante assunto, obstando assim, pela correspondência proporcional das imagens entre si, ao desenho e resultado caricaturais da espada que lá vemos.

Sem mais, sou o teu velho amigo,

Alfredo Guimarães.[

Parecer do Arquitecto Vimaranense, sr. José Luís Ferreira.

Não podia deixar de consultar neste plebiscito de restritas proporções o sr. José Luís Ferreira, que tem não só um diploma de arquitecto, conquistado nas escolas técnicas, como exuberantemente tem patenteado a sua competência em assuntos de arte.

Da sua resposta à minha carta se extrai o suficiente para condenação formal dos desenhos do mosaico do Toural.

Segue a carta.

Sr. A. L de Carvalho:

Acusando a carta de V., respondo:

Primeiro: — O desenho ou composição decorativa em mosaico no pavimento do Toural e que parece tinha principiado sofrivelmente, está-se-nos apresentando de uma imbecilidade de decoração no seu conjunto, que me abstenho de julgar por várias razões.

Segundo: — O desenho que reproduz a cruz e a que V. se refere, é de uma mesquinhês muito ridícula; e não sei a que propósito obedece a sua colocação naquele sítio, não só como elemento decorativo, em desproporção com os que o cercam mas também como elemento simbólico.

Pode fazer uso destas minhas afirmações.

De V. At.º V.or Obg.°

José Luís Ferreira.

[Echos de Guimarães, ano XIV, n.º 540, 15 de Dezembro de 1928]

Tendo já sido ouvidos um pintor, um crítico de arte, um arquitecto, ao leque de "peritos" em regras para o bom desenho de um mosaico para o Toural, faltava um especialista em decoração. Mas esta área de conhecimento não foi esquecida por A. L. de Carvalho no seu inquérito sobre a obra do Capitão Luís de Pina, tendo sido ouvido o decorador José Luís de Freitas, nada mais do que o responsável pela concepção dos canteiros do jardim do Toural, rasgados em 1911.

Última palmatoada, por um decorador profissional.

Meu amigo sr. José Ribeiro de Freitas:

O senhor que fez com distinção um curso de desenho e pode ser considerado um temperamento artístico, de gosto e vista cultivados — qualidades já suficientemente comprovadas na execução de tantas obras municipais por si orientadas, nomeadamente a transformação do Largo do Toural, o traçado do Jardim Público, etc. além de lhe estarem confiadas importantes obras particulares que, exigindo senso artístico e executivo, eu sei terem merecido a

plena aprovação de arquitectos como Raul Lino — não se furtará portanto, a responder-me a esta mera pergunta de questionário:

— O desenho do mosaico no Toural, nomeadamente aquele que reproduz a Cruz, satisfaz as regras da Arte?

Autorize-me a dar publicidade à sua resposta, pois dela careço.

Mt.º Grato,

A. L. de Carvalho.

Meu prezado amigo:

Há já uns anos que prestei os meus serviços na Câmara.

São da minha autoria os melhoramentos da rua de S. Dâmaso Trás do Muro e do Largo do Trovador, bem como o respectivo ajardinamento.

De minha autoria é também a transformação e ajardinamento do Largo do Toural; mas o projecto do jardim público é do horticultor sr. Jacinto de Matos.

Deixo porém este assunto, que não interessa, e vem apenas para não aceitar, com o silêncio, uma honra que me não pertence, e passo a tratar do assunto em questão:

À ornamentação do mosaico do Toural presidiu a intenção de continuar com o estilo que adoptei no ajardinamento, estilo românico; mas a meu ver, houve infelicidade em empregar ornatos tão variados, alguns muito complicados e em excesso desenvolvidos, a ponto de a vista não os abranger. Deste facto, ao certo, resulta a falta de ligação da ornamentação do centro com a cercadura.

É de muito mau efeito o zig-zag do centro cortado na ligação lateral com os passeios; e, quanto a mim, são simplesmente insuportáveis os entrelaços da entrada inspirados segundo creio, na capa de certa publicação, mas que ali dão a ideia duma série de círculos concêntricos, produzidos por pedra que cai num líquido, ou então a de uma série dr pneus de diferentes tamanhos, ali amontoa-dos, muito em desarmonia com a leveza do letreiro sobre que parece apoiarem.

A alguns detalhes faltam as características do estilo: na cercadura dos passeios há curvas com toda a tendência para a arte nova e no primeiro lóbulo das folhas há anomalia, do que resultou a folhagem ficar com excesso de volume e daí a necessidade de lhe meter nervuras de mau aspecto.

O volume do maciço da estátua parece-me prejudicado pelo excesso de aterramento, a meu ver desnecessário, pois só serve para agravar o desnivelamento da parte de baixo; a não ser que, com a massagem, o mosaico rebaixe ao ponto do primitivo pavimento, o que me parece impossível.

Quanto ao emblema ali colocada, cruz e espada, parecido com o emblema do Senhor dos Santos Passos, se não era possível dar-lhe outra forma, melhor seria tê-lo evitado; o que em qualquer dos casos era sempre preferível, visto tratar-se de um símbolo impróprio para estar no chão e em posição horizontal.

Seu muito amigo

José Ribeiro de Freitas.

Echos de Guimarães, 15 de Dezembro de 1928

Este conjunto de pareceres marca o ponto alto da tentativa de transformar a polémica num julgamento técnico definitivo. A aparente unanimidade esconde, porém, a selecção orientada dos intervenientes e a formulação condicionada das perguntas. A estética surge aqui como linguagem de autoridade, colocada ao serviço de um conflito que é, antes de mais, político e pessoal.

O pintor e professor de desenho Abel Cardoso (imagem gerada digitalmente por IA)

Reacções na imprensa

Entre o desencontro e a "harmonia"

Após a publicação do “plebiscito” de especialistas no Ecos de Guimarães, a polémica sobre o mosaico do Toural começa a revelar sinais de desgaste. Parte da imprensa local, em particular O Comércio de Guimarães, adopta um tom mais conciliador, procurando recentrar o debate no sentimento público e apelar à harmonia entre os contendores. Estes textos são reveladores de um momento em que o conflito já ultrapassara largamente o seu pretexto inicial e começava a incomodar leitores e redacções.

comércio de guimarães
Opiniões desencontradas

Vai acesa luta na imprensa vimaranense. Geme os prelos sob o peso dos linguados que enchem colunas de matéria cerrada. Respira-se uma atmosfera carregada, impregnada de ameaças surdas que se adivinham, sem se ouvirem… Sobre o papel, que tanto martirizamos, deslizam suavemente penas, que tantas vezes têm cantado hinos de glória à Terra de Afonso Henriques… Escrevem, nervosas, e iluminam rápido. Quem lucra? O público que se ri.

Fomos dos que acharam pouco adequado o sítio em que foi colocada uma cruz, em mosaicos que embelezam a praça do Toural. Não somos tão leigos que não saibamos qual o seu significado, mas estamos, como todo o público, no direito de não gostar do sítio escolhido. A Cruz é um símbolo e um emblema sagrado e, como tal, deve ser respeitado.

Nós sabemos que há quem coloque cruzes em sítios muito menos dignos; mas devemos seguir-lhe o exemplo? Em Guimarães também houve quem, por política, quebrasse um Cristo que estava pregado numa cruz, e não houve uma pessoa digna que aprovasse tal gesto.

Uma Cruz, colocada no chão, que todos pisamos, não está bem.

Não queremos apreciar a arte, porque para isso nos falta competência; mas queremos apreciar o caso pelo sentimento e pelo respeito que deve haver com os símbolos de uma religião.

Como vimaranenses, contrista-nos o campo para que está inclinando a questão. Os dois contendores, que tantos e tão bons serviços têm prestado a Guimarães, hão-de reconsiderar, harmonizando, e, sem quererem rebaixar o mérito de quem o possua, prestarão justiça a quem a tem.

O Comércio de Guimarães, 18 de Dezembro de 1928

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Uma discórdia que tende a harmonizar-se

Já por diversas vezes nos referimos a esse pomo de discórdia que se chama o mosaico do Toural, lastimando que ele não satisfizesse de modo algum o apreço público. O seu motu proprio, como fora idealizado pelo autor, não correspondia por maneira alguma ao sentimento e, pelo que se depreendia, não autorizava a ser preso pela mão dos muitos presentes pessoas que ali residem igualmente desconsideravam o nosso modo de ver.

Felizmente, o Sr. A. L. de Carvalho levou a sua “fezada” para o bom campo, escutando a sua opinião e a dos mestres no assunto. E pronunciaram-se com a maior clareza possível, condenando mais felizmente a obra, que assim, de vez, aquela denúncia infértil merece para nós todo o apreço.

Não queremos por forma alguma condenar os méritos artísticos do desenhista, nem tão-pouco — já o afirmámos — ver naquele motivo de decoração do pavimento do Toural qualquer alusão desdenhosa ao símbolo do Cristianismo.

Bem sabemos que a Cruz representa o primeiro Rei, simples, e não o que inteiramente nos deram outras incorrecções ali desagradáveis, como dizem os seus respeitantes à aplicação escarrada do estilo empregado.

De resto, salta aos olhos aquela “esperteza” lembrando-nos assim o próprio autor daquela obra, não nos satisfazendo de todo. Nós viramos, e actualmente proclamamos, a actual Câmara, no juízo e satisfação de todos nós, a modificar de forma a pôr termo imediato, de forma inflexível e culposa.

Ninguém está isento de ter os seus erros, não havendo com tais razões artistas melhores, pois pareceu para muitos com a nossa justa crítica.

E continuaremos todo o apoio aos nossos amigos.

O Comércio de Guimarães, 21 de Dezembro de 1928

Estes textos assinalam a passagem da polémica do confronto directo para um discurso de apaziguamento que, na prática, legitima a crítica inicial e isola o autor do mosaico. A invocação reiterada do “sentimento público” funciona como argumento de encerramento, preparando o terreno para a intervenção final de Luís Augusto de Pina Guimarães, que recusará esta solução conciliatória.

A cruz da discussão.

A resposta final

Pina encerra a discussão

Publicado após os apelos à concórdia veiculados por O Comércio de Guimarães, este texto representa a última intervenção pública de Luís Augusto de Pina Guimarães na polémica do mosaico do Toural. Longe de aceitar o tom conciliador que se tentava impor, Pina opta por uma resposta satírica e devastadora, desmontando o “plebiscito” de especialistas e expondo contradições, ressentimentos e oportunismos que, no seu entender, presidiam à crítica da sua obra. O texto encerra definitivamente a discussão no plano jornalístico.

desfecho
Mosaicos do Toural

A comédia que se exibiu na ribalta da imprensa, levada à cena pelo impagável autor da Confissão Auricular e quejandas baboseiras, e, ainda agora, de um desastrado título em que o reprovam, no plural, briga com o quem, no singular, foi de uma execução e efeitos magistrais na parte final.

Ao fundo, via-se uma deliciosa perspetiva do Coliseu de Roma, onde eram lançados os cristãos às feras, para passatempo e gáudio dos vários a. l. l.. Ao centro, o comparsa e autor da peça, os tentando a sua juba branca, espavorido ainda pelo fiasco de S. Mamede, se a ele não corressem os bombeiros a salvá-lo, pela sua expulsão de sócio da A. dos E. de C. e pelo crime, no dizer do sábio arquitecto Marques da Silva, da demolição de uma joia arquitectónica da velha Guimarães, que ali para Donães fazia sombra a um prédio seu, esse imitava o seu colega Policarpo a recitar o Melros, metendo a costumada “sapatilha”, e ia apresentando os artistas, que, uns após outros, seguiam a declinar as suas incumbências.

Abria o circuito um bem caracterizado e leal patriarca, empunhando as tábuas da Lei, cujos cinco mandamentos, fazendo-se pelo Comércio de Guimarães de 21 de Junho de 1927, numa referência ao candelabro monumental da sua autoria, que diz ser deselegante, pesado e excessivamente baixo, se devem encerrar num só mandamento: «Olha para o que eu digo e não para o que eu faço.»

Deslizava depois, bamboleante e arguto, o mais imparcial, quanto ao gosto individual e sensibilidade religiosa de cada um, no direito, portanto, que tinha de aplicar aquilo que apliquei, inclusive no que diz respeito ao escudo afonsino, historicamente garantido. Mas, ao sair pela porta da esquerda, quedara-se a monologar o que no Janeiro de 1 de Setembro último escrevera por tabela ao dos caixilhinhos, aquando do projectado corte das árvores do Toural: aquilo que ali ao presente vemos é simplesmente pavoroso, sob o ponto de vista ornamental, sem proporções, no volume e arranjo. E, batendo com a mão na testa, foi-se a pensar no que logo a seguir escrevera: «Porque estando a realizar-se, pela amplidão do pavimento do mesmo largo, uma decoração artística de evidente utilidade, senão de intrínseco merecimento, etc.»

Seguiam-se depois, a fechar o circuito desta fantástica encenação de exuberâncias de conhecimentos, dois temperamentos de artistas despeitados por não estarem no meu lugar, que não solicitei, donde foram despedidos, e que são exímios em monumentos funerários.

Os espectadores pasmaram, riram, riram… e até a lágrima celeste, ingénua e luminosa, tremeu, tremeu, tremeu e caiu silenciosa. O pano desceu igualmente silencioso e, no écran, como auréola a iluminar as trevas dos que não querem ver, surgiram então, com maior pasmo ainda, os mosaicos da Avenida em Lisboa, onde os nomes consagrados da nossa História, as cruzes e os escudos se patenteiam triunfalmente, a rir-se das regras impostas às múltiplas manifestações da Arte.

E, para terminar, porque tenho mais que fazer, transcrevo aqui, a talho de foice, o seguinte conceito de Frei Amador Arrais, que cita, num magistral artigo seu publicado no Comércio do Porto de 18, o escritor vimaranense Alfredo Pimenta:

«Letras em mau sujeito são peste e pernicioso veneno.»

Capitão Luís de Pina

O Comércio de Guimarães, 21 de Dezembro de 1928

Este texto fecha a polémica no plano discursivo. Depois dele, a discussão desloca-se para o terreno administrativo e urbanístico, com deliberações camarárias que não retomam o debate simbólico. A violência satírica aqui empregue não é acessória: constitui a chave de leitura de um conflito que, sob o pretexto de uma cruz no chão, expôs fraturas políticas, ressentimentos pessoais e diferentes concepções de coerência pública.

Rescaldo

Continuidade e reconhecimento institucional

A deliberação camarária que se segue permite avaliar o impacto real da polémica sobre o mosaico do Toural. Ao contrário do que a violência da discussão jornalística poderia fazer supor, a autoridade administrativa municipal não apenas não desautorizou o autor da obra, como continuou a demonstrar consideração pelo seu trabalho e pelas suas propostas urbanísticas. Este dado é essencial para compreender a distância entre o ruído da polémica pública e as decisões efectivas do poder local.

desfecho
Deliberação camarária

A Comissão Administrativa da Câmara Municipal, em sua sessão de 12 do corrente, resolveu, entre outras deliberações, o seguinte: […]

Foi ainda apresentada pelo mesmo Sr. Vereador uma proposta para que as árvores da Praça de D. Afonso Henriques, de forma irregular e inestética, sejam substituídas por arbustos de pequeno desenvolvimento, que não vedem aos olhos dos nativos e estranhos a estátua do fundador da Nacionalidade e a obra artística de decoração do mosaico.

Ecos de Guimarães, 22 de Dezembro de 1928

Esta deliberação é esclarecedora: longe de questionar a legitimidade artística do mosaico, a Câmara reafirma o seu valor enquanto “obra artística de decoração”, integrando-a numa reflexão mais ampla sobre a visibilidade do monumento e a organização do espaço urbano. A polémica em torno da cruz não produz aqui qualquer efeito correctivo ou censório.

A cruz no chão do Toural

Arte, política e polémica

Em Dezembro de 1928, Guimarães assistiu a uma das mais ruidosas polémicas da sua história urbana recente. O pretexto foi o desenho do mosaico da Praça de D. Afonso Henriques — o Toural —, então em execução, e em particular a presença de uma cruz integrada no pavimento. O debate, travado sobretudo na imprensa local, mobilizou argumentos de estética, simbolismo religioso, autoridade artística e respeito pelo “sentimento público”. Mas rapidamente se percebe que aquilo que estava em causa ia muito além de uma opção decorativa.

O autor do projecto, Luís Augusto de Pina Guimarães, não era apenas um desenhador ocasional chamado a resolver um problema técnico. Republicano convicto, oficial do Exército e figura activa na reflexão sobre o espaço urbano de Guimarães, Pina concebera o mosaico como parte de um programa simbólico ligado à memória fundacional da cidade e à figura de D. Afonso Henriques. A cruz que ali figurava era, na sua leitura, elemento heráldico do escudo afonsino, e não símbolo devocional isolado.

A crítica partiu de A. L. de Carvalho, também ele protagonista destacado da vida intelectual e política local. No entanto, em 1928, o país vivia já sob a ditadura saída do golpe de 28 de Maio de 1926, e antigas clivagens republicanas começavam a reorganizar-se. A súbita centralidade do argumento religioso, num autor com passado anticlerical bem conhecido, confere desde logo à polémica uma espessura que ultrapassa o domínio da arte.

Os textos aqui reunidos — artigos de opinião, respostas, pareceres de “especialistas”, reacções de imprensa e deliberações administrativas — permitem acompanhar passo a passo o desenrolar dessa controvérsia. Lidos em sequência, mostram como um motivo aparentemente secundário se transforma em campo de batalha simbólico, onde se cruzam rivalidades pessoais, trajectórias políticas divergentes e diferentes concepções de coerência pública.

A publicação integral destes documentos não pretende reabrir querelas antigas nem julgar os seus protagonistas à luz de sensibilidades contemporâneas. O seu interesse reside noutro plano: o de revelar como o espaço urbano de Guimarães foi — e continua a ser — lugar de inscrição de conflitos, debates e negociações de sentido. A cruz no chão do Toural foi apenas o detonador visível de uma tensão muito mais funda, que esta série documental procura tornar inteligível.

arte ou política? 

O que ficou da polémica

Quase um século depois, a polémica em torno do mosaico do Toural impressiona menos pelo seu objecto do que pela intensidade com que foi vivida. A presença de uma cruz no pavimento — realidade comum na tradição artística cristã e heráldica europeia — desencadeou uma discussão desproporcionada, marcada por violência verbal, ironia corrosiva e sucessivos apelos à autoridade estética e moral. A explicação para esse desfasamento entre causa e efeito não está no desenho em si, mas no contexto em que foi produzido e recebido.

A leitura conjunta dos textos publicados entre Dezembro de 1928 e o final desse ano mostra com clareza que a polémica funcionou como espaço de projecção de conflitos anteriores. O debate estético serviu de linguagem respeitável para uma luta de coerências: de um lado, a afirmação de uma fidelidade republicana laica e historicista; do outro, uma trajectória de adaptação ao novo quadro político e moral do pós-28 de Maio. A cruz foi menos um problema simbólico do que um instrumento retórico.

É igualmente revelador que o “plebiscito” de especialistas, apresentado como julgamento técnico definitivo, não tenha tido tradução efectiva no plano administrativo. As deliberações camarárias posteriores demonstram que a autoridade municipal continuou a reconhecer o mosaico como obra artística e a integrar o seu autor na reflexão sobre o espaço urbano. O ruído da polémica jornalística não se converteu em censura institucional nem em desautorização profissional.

O episódio permite, assim, distinguir dois planos que nem sempre coincidem: o da controvérsia pública e o da decisão administrativa. Enquanto o primeiro amplifica ressentimentos, alianças e antagonismos pessoais, o segundo tende a filtrar esses excessos e a agir segundo critérios de continuidade e utilidade urbana. No caso do Toural, foi este segundo plano que prevaleceu.

Hoje, o mosaico — ou a memória do mosaico — pode ser lido como documento material de um momento de transição. Não apenas transição política, mas também cultural: um tempo em que a cidade discutia a sua imagem, o seu passado e a forma como queria inscrevê-los no espaço público. A polémica de 1928 lembra-nos que as cidades não se constroem apenas com pedra, argamassa ou desenho, mas também com palavras, conflitos e silêncios.

Reunir e reler estes textos é, por isso, mais do que um exercício de historiografia local. É uma forma de compreender como Guimarães tem pensado — e disputado — o seu próprio chão.