Em Guimarães, somos todos historiadores. (Diuner de Guimarães)

Francisco Martins Sarmento

patriarca do renascimento vimaranense

Arqueólogo, fotógrafo, escritor

Francisco Martins de Gouveia Morais Sarmento nasceu em Guimarães, na freguesia da Oliveira, a 9 de março de 1833, no seio de uma família abastada ligada à Casa da Ponte, em S. Salvador de Briteiros. Fez as primeiras letras em Guimarães, estudou Latim no Porto e concluiu o curso de Direito na Universidade de Coimbra, em 1853, sem jamais exercer a advocacia. A fortuna herdada dava-lhe margem para uma vida confortável; ele escolheu antes uma vida de trabalho intelectual, posta ao serviço da terra que lhe deu o ser.

Jovem, sonhou ser poeta. Em 1855 publicou um volume de Poesias que a crítica recebeu com frieza e suspeitas de plágio, episódio que o levou a abandonar a literatura propriamente dita e a procurar outros caminhos. Nas duas décadas seguintes, entre crónicas polémicas, estudos sociológicos e intervenção na imprensa, foi afinando o olhar sobre a sociedade portuguesa, enquanto devorava livros e aprendia línguas — dominava, além do português, o castelhano, o francês, o inglês, o alemão, o latim e o grego.

A verdadeira vocação revela-se quando sobe o monte de S. Romão e começa a interrogar as “cidades mortas” que se escondem na Citânia de Briteiros. A partir de 1874 dirige campanhas sistemáticas de escavação em Briteiros e no Castro de Sabroso, aplicando métodos modernos e recorrendo à fotografia — que pratica desde finais da década de 1860 — como instrumento científico. Pioneiro da arqueologia pré-romana em Portugal, constrói uma obra vasta e exigente, onde se destacam Ora maritima. Estudo d’este poema na parte respectiva à Galliza e Portugal, Os Argonautas e os estudos sobre Lusitanos, lígures e celtas, em que discute, com independência de espírito, as origens étnicas do Noroeste peninsular.

Em 1880, o IX Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia Pré-Históricas, reunido em Lisboa, desloca-se a Briteiros para ver, no terreno, o trabalho do arqueólogo vimaranense — momento simbólico da consagração internacional de Sarmento. No ano seguinte, recusando estátuas e honrarias, aceita que os amigos lhe ergam uma homenagem útil: a Sociedade Martins Sarmento, fundada em 1881 para promover a instrução e a cultura em Guimarães. A partir dela, Sarmento é motor de um amplo movimento de “renascença vital vimaranense”, que tem na Exposição Industrial de 1884 um marco decisivo e que liga a investigação arqueológica à afirmação da identidade local, ao progresso económico e à instrução popular.

Morre em Guimarães, a 9 de agosto de 1899. A cidade reage com um luto raro, vendo nele, como então se escreveu, um sábio e um santo, “glória e honra da humanidade”. A Citânia de Briteiros, o Castro de Sabroso, a Sociedade que leva o seu nome, a Revista de Guimarães e os seus livros – de Ora maritima aos Lusitanos, lígures e celtas – são hoje os monumentos vivos de um homem que fez da ciência uma forma de cidadania e que ajudou a reinventar Guimarães na transição para o século XX.

francisco martins sarmento, nota biográfica
Percurso
  • 1833 (9 de março) – Nasce em Guimarães, freguesia da Oliveira, filho de Francisco Joaquim de Gouveia Morais Sarmento, senhor da Casa da Ponte, e de D. Joaquina Cândida de Araújo Martins.

  • c. 1841 – Inicia o ensino primário em Guimarães; mais tarde segue para o Porto, onde estuda Latim no Colégio da Lapa.

  • Inícios da década de 1850 – Conclui os estudos secundários em Coimbra e ingressa na Faculdade de Direito.

  • 1853 – Forma-se em Direito pela Universidade de Coimbra, com apenas 20 anos; regressa a Guimarães e fixa-se na sua casa do então Largo do Carmo.

  • 1855 – Publica o volume Poesias; a má receção crítica leva-o a abandonar a carreira de poeta e a orientar-se para o estudo histórico e científico.

  • 1856–1874 – Vive um período marcado pela intervenção jornalística e por estudos de caráter social e histórico, que mais tarde serão designados como “ciclo sociológico e jornalístico” da sua evolução intelectual.

  • Desde c. 1868 – Dedica-se intensamente à fotografia, que utilizará como instrumento de trabalho nos levantamentos arqueológicos e etnográficos.

  • 1874 – Inicia a prospeção sistemática da Citânia de Briteiros, que rapidamente estende ao Castro de Sabroso e a outros sítios pré-históricos do Noroeste.

  • 1880 – A Citânia de Briteiros é visitada por figuras de relevo do IX Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia Pré-Históricas, momento de afirmação internacional de Sarmento e da arqueologia castreja portuguesa.

  • 1880 – Publica Ora maritima. Estudo d’este poema na parte respectiva à Galliza e Portugal, obra-chave da sua reflexão sobre as origens do Ocidente atlântico.

  • 1881 (20 de novembro) – Um grupo de vimaranenses funda, em sua homenagem, a Sociedade Martins Sarmento, que terá como missão central a instrução popular, a cultura e a proteção do património arqueológico.

  • 1881 – Integra a Expedição Científica à Serra da Estrela, organizada pela Sociedade de Geografia de Lisboa, como responsável pela secção de Arqueologia.

  • 1884 – Participa ativamente na Exposição Industrial de Guimarães, afirmando o papel da indústria local e ligando a ação da Sociedade Martins Sarmento ao progresso económico e social da cidade.

  • 1887 – Publica Os Argonautas. Subsídios para a antiga história do Ocidente, aprofundando o diálogo entre fontes clássicas e investigação arqueológica.

  • 1889–1894 – Dá à estampa vários estudos de etnologia e pré-história, entre os quais Os Lusitanos, questões de etnologia e os ensaios reunidos sob o título Lusitanos, lígures e celtas, em que defende, com grande polémica, a importância dos estratos pré-célticos no Noroeste.

  • 1899 (9 de agosto) – Falece em Guimarães, na casa onde vivia. No dia seguinte, a Câmara Municipal dá o seu nome ao largo fronteiro, e inicia-se um vasto movimento de homenagem ao “patriarca” da Guimarães moderna.

Martins Sarmento nas Memórias de Araduca