Em Guimarães, somos todos historiadores. (Diuner de Guimarães)

Um projecto do capitão pina

Uma galeria no Toural

Em 1911, Guimarães esteve perto de ganhar uma galeria coberta no Toural. Concebida pelo Capitão Luís Augusto de Pina Guimarães, a marquise prometia conforto, modernidade e uma nova leitura urbana do principal largo da cidade. O projecto foi elogiado, discutido e quase avançou, mas acabou por nunca sair do papel. Entre entusiasmo cívico e hesitações privadas, ficou como uma das grandes oportunidades perdidas da história urbana vimaranense.

Uma ideia que ficou na gaveta

A marquise do Toural (1911)

Em 1911, poucos meses depois da implantação da República, Guimarães conheceu um dos mais ambiciosos projectos de qualificação urbana alguma vez pensados para a sua principal praça: a construção de uma galeria coberta — designada nos textos da época como marquise ou galeria — ao longo do lado nascente da Praça de D. Afonso Henriques, acompanhando o extenso corrente de casas que ali se ergue, no traçado onde outrora correra a muralha medieval.

A iniciativa partiu de um contexto muito concreto: o entusiasmo reformista dos primeiros tempos republicanos, marcado por uma forte mobilização cívica, pela crença no progresso material e pela convicção de que a cidade podia — e devia — ser melhorada por iniciativa dos próprios cidadãos. É nesse quadro que surge o projecto elaborado por Luís Augusto de Pina Guimarães, oficial do Exército, republicano empenhado e figura já então reconhecida pela sua capacidade técnica e pela qualidade do seu desenho.

A proposta era simultaneamente funcional e estética. Previa a construção de uma galeria assente em colunas de ferro fundido, com cobertura envidraçada pintada a azul-celeste, destinada a proteger os transeuntes da chuva e do sol, a favorecer o estacionamento e a dinamizar a vida comercial. O projecto articulava-se ainda com o alargamento do passeio, com a regularização do pavimento e com a uniformização cromática das fachadas, conferindo ao lado nascente do Toural uma leitura arquitectónica coerente e monumental.

Desde o primeiro momento, a imprensa local sublinhou o carácter moderno e razoável da iniciativa. O custo estimado era considerado reduzido; o modelo de financiamento — assente numa pequena anuidade por porta, durante doze anos — apresentado como equitativo; e os benefícios para proprietários, comerciantes e visitantes descritos como evidentes. O Grupo de Propaganda «Por Guimarães» assumiu o papel de promotor e mediador, empenhando-se activamente em obter a adesão dos donos dos prédios abrangidos.

Durante algumas semanas, tudo indicia que a marquise seria uma realidade. As notícias são optimistas, as reuniões sucedem-se, a comissão trabalha, a Câmara Municipal mostra-se disponível para colaborar no alargamento do passeio. Porém, de forma tão discreta quanto eloquente, o assunto começa a desaparecer das páginas dos jornais. Não há polémica aberta, não há rejeição pública, não há decisão formal de abandono. Há apenas silêncio.

A marquise do Toural nunca foi construída. Três anos mais tarde, a sua menção num periódico humorístico surge já como ironia, sinal inequívoco de que o projecto passara para o domínio das boas ideias não realizadas. O episódio, aparentemente menor, revela contudo muito sobre os limites da iniciativa cívica, sobre a dificuldade de transformar consensos difusos em compromissos efectivos e sobre a própria história urbana de Guimarães no início do século XX.

O Toural, cerca de 1864 (gravura do Arquivo Pitoresco tratada digitalmente por IA)

Dos jornais

A “marquise” do Toural

“Está pronto o esboço projecto de uma galeria na fachada nascente do Toural, destinada a conservar ao respectivo largo, pela supressão do jardim, a sua feição de ponto central da cidade, a dar realce à soberba frontaria que o embeleza, oferecendo assim aos vimaranenses um lugar de estacionamento apropriado e aos estranhos um aformoseamento impressionante, valorizando o local.

É seu autor o ilustre oficial e nosso amigo snr. Capitão Luís Augusto de Pina Guimarães, que põe em relevo, no seu notável trabalho, a sua lucidíssima inteligência e os vastos recursos de que dispõe trabalhando com o seu hábil e primoroso lápis.

A marquise assenta em 16 colunas, e o efeito que produz no desenho, é realmente excelente, constituindo a sua realização uma bela obra para Guimarães, pelo que não devem descansar os entusiastas desse empreendimento, trabalhando desde já, para que não pereça esta iniciativa de tão bom gosto.

O autor do projecto orça essa obra em dois contos a dois contos e quinhentos mil réis, que achámos baratíssimo, e, portanto, de pequeníssimo dispêndio para os proprietários dos prédios.

Eis as bases principais da marquise:

  • Colunas de 3,8 m de altura, 0,34 m de diâmetro na base octogonais;

  • Altura máxima da cobertura, desde o peitoril das janelas, 2,11 m;

  • Largura da cobertura, 4,3 m;

  • Vão dos arcos, 6m;

  • Largura do passeio, 3,54 m;

  • Colunas e guarnições de ferro fundido;

  • Cobertura de vidro, pintada a azul-celeste;

  • Passeio a mosaico ou a argamassa.

O snr. Capitão Pina mostra ainda no projecto a conveniência que havia em obedecer a uma só cor, a pintura dos prédios de todo o corrente, o que torna mais estético aquele grandioso prédio que é todo o nascente do Toural.

Está exposto num estabelecimento o projecto para que o público de Guimarães o aprecie.”

Alvorada, 13 de Maio de 1911

O Toural, em 1886, em dia de visita do deputado João Franco (imagem tratada digitalmente por IA)

Dos jornais

Grupo de Propaganda "Por Guimarães"

Reuniu-se no dia 6 do corrente, pela primeira vez a nova direção do Grupo de Propaganda «Por Guimarães», ficando os lugares assim distribuídos: Dr. Abel Gonçalves, presidente; Capitão Luís Augusto de Pina Guimarães, vice-presidente; António Machado Guimarães, 1º secretário; A. J. Gonçalves, 2.º dito; Simão Ribeiro, Tesoureiro; Domingos José Pires e Augusto Mendes da Cunha e Castro, directores.

Foi lido vário expediente, resolvendo-se expedir ofícios aos snrs. Ministro do Interior e Directório Republicana, pedindo a conservação nesta cidade do Liceu e instando por que seja elevado a Central.

[…]

Resolvendo-se mais constituir uma comissão composta dos dois srs. Abel Gonçalves, Domingos José Pires e Simão Ribeiro, para se entender com os proprietários dos prédios do Toural, a fim de em breve se iniciarem os trabalhos de construção da projetada galeria ou marquise.

Independente, 13 de Maio de 1911

O Toural, cerca de 1900 (imagem tratada digitalmente por IA)

Dos jornais

A "marquise" do Toural

O patriótico Grupo de Propaganda «Por Guimarães» acaba de enviar aos seus proprietários dos prédios do Toural, lado norte deste, a seguinte circular:

Excelentísimo Senhor,

Tendo o nosso ilustre consócio o Ex.mo Sr. Capitão Luís Augusto de Pina Guimarães por iniciativa própria, e a pedido de algum ou alguns membros da Direção do Grupo de Propaganda «Por Guimarães», procedido a estudos e elaborado um projeto de galeria na parte nor-leste do Largo do Toural, com o duplo fim de valorizar a propriedade e de embelezar a cidade, tenho a honra de, na qualidade de presidente do referido Grupo, apresentar os motivos que nos levam a pedir a sua aquiescência, a fim de ver se podemos mais uma vez tornar-nos úteis a esta cidade. O Grupo é assaz modesto para a realização de tal obra e seria mesmo menos justo que, procurando tratar do bem-estar de todos os vimaranenses, apenas dedicasse toda a sua iniciativa a favor de meia dúzia de proprietários dos quais um deles é V. Ex.ª

Porém, não desejando de forma alguma falsear o seu programa, conseguimos aplanar as maiores dificuldades que se nos deparavam na realização dos estudos, planta e projeto da referida marquise, e a realização de cópias necessárias para a sua pronta e imediata construção. Uma vez que V. Ex.ª e os restantes proprietários, acedam ao nosso pedido com a pequena anuidade de 6$370 réis por porta, por um prazo de 12 anos, teremos conseguido o nosso fim, e a referida obra esteja realizada se fará entrega e passará desde logo a pertença do prédio.

A dificuldade era o estudo que isso demandava, a elaboração da planta e como acima se disse o arranjar-se o capital suficiente, e também para se poder desde logo fazer a referida entrega, sem aumento e gravame para todos os proprietários, para que se possa desde logo gozar a referida marquise.

Tomamos por base a porta, pois que era e é o modo mais equitativo para que os Srs. proprietários, possam sem grande dispêndio valorizar de um modo considerável as suas propriedades, porquanto havendo proprietários que possuem 1 ou 2 portas numa extensão de 1m,75 a 3m,50 não era justo que pagassem tanto como outros que possuem 4 ou 6 portas numa outra extensão de cerca 10m,50.

Poderei desde já afirmar que, com a Ex.ª Comissão Municipal, o passeio se tornará mais amplo e sendo como é e será um passeio concorrido e obrigatório a todos os que visitam esta cidade, o comércio se desenvolverá de um modo intensivo e progressivo. V. Ex.ª verá que os pequenos sacrifícios que ousamos pedir serão compensados de sobejo com lucros incalculáveis porque logo a necessidade de os rendeiros melhorarem os seus estabelecimentos será o seu primeiro pensamento. A quantia parece grande a V. Ex.ª, com sinceridade nos cumpre dizer, que o prédio fica desde logo rendendo pelos seus estabelecimentos mais 10% de que na atualidade tem. Como o nosso fim é pugnarmos pelo desenvolvimento material e moral de Guimarães, escusado será dizer que desinteressadamente trabalhamos para conseguir, basta-nos de momento a aquiescência de V. Ex.ª para sabermos se podemos realizar tão importante obra, pois que se alguma parcela puder ser abatida ao importe anual de 6$770 réis gostosamente o faremos, na certeza, porém, de que a quantia não será aumentada como no respetivo contrato se fará constar.

Aguardando certos de nos tornarmos dignos duma boa resposta, pedimos a V. Ex.ª que qualquer dúvida que ao seu esclarecimento surja nos seja logo transmitida, a fim de podermos dentro em breve prestarmos todos os esclarecimentos necessários.

Saúde e Fraternidade.

Guimarães, 15 de maio de 1911.

A Direção.

O Comércio de Guimarães, 9 de Maio de 1911

O Toural, cerca de 1911 (imagem restaurada digitalmente por IA)

Dos jornais

Galeria do Toural

Reuniu na última terça-feira a comissão que se propôs tomar a peito a construção da projetada galeria ou arcada do nosso largo principal, assentando-se na melhor forma de garantia do empréstimo harmonizado com os interesses dos proprietários dos edifícios beneficiados por aquele melhoramento, a fim de obter-se a indispensável aquiescência dos mesmos. A Câmara está no louvável empenho de coadjuvar os esforços da comissão no que diz respeito ao alargamento do passeio ao qual tem de subordinar-se a rua oriental e o próprio pavimento do Toural, que deve ficar limpo por ocasião das festas da cidade, motivo pelo qual há certa urgência na resolução do assunto. Pela anuência, obtida ontem, de alguns proprietários, a comissão espera ser bem-sucedida.

Alvorada, 8 de junho de 1911

A Marquise do Toural

É sobremodo animadora e digna de registo, a forma como a Comissão incumbida de levar a efeito a construção da Galeria na parte nascente do Toural, foi recebida pelos proprietários dos prédios.

A alguns falta ainda falar para que a anuência seja unânime e completa, é certo, mas a continuar como até aqui, de presumir é que se veja realizada obra tão formosa.

O Comércio de Guimarães, 9 de Junho de 1911

Dos jornais

Museu Vimaranense

Os paus e tabuletas das associações.

Os caloteiros deste jornal.

A malhada em seco no Malho.

O Hino do Clube dos Caçadores.

Os chapéus das mademoiselles cá do burgo.

O novo relógio Marianista (marca registada).

As botas de camurça branca do O Bilontra.

As badaladas do Relógio da Sé.

Os pelames da Rua de Couros.

A fábrica do sabão.

A coroa do Roberto.

A mão do High-Life. (Se ela ficasse com os dedos para cima…).

Os apóstolos do Campo da Feira.

As dentaduras dos dentistas.

A rosca do Avelino.

A tabuleta do milhão.

A luz elétrica… dos sustos.

O São Jorge da esquadra.

O ex-relógio da Oliveira.

Os cartazes dos pós Keating.

O Banco Comercial.

O cemitério velho.

A universidade do Cosme.

O general “moca”.

O porteiro do Colégio do Campo da Feira.

Os presos da cadeia.

A marquise do Toural.

O leque do Benjamim.

A fábrica do gelo.

Melro, 21 de Junho de 1914

O Toural, em meados da década de 1950 (imagem restaurada digitalmente por IA)

Uma ideia que ficou na gaveta

Porque falhou a marquise do Toural?

O fracasso do projecto da marquise do Toural não se explica por insuficiência técnica, falta de visão urbana ou ausência de mérito estético. Pelo contrário: trata-se de uma proposta clara, bem fundamentada, amplamente elogiada pela imprensa e pensada segundo critérios de funcionalidade, conforto e valorização do espaço público. A sua não concretização deve ser procurada noutro plano, menos visível mas mais decisivo.

O modelo de viabilização assentava quase exclusivamente na adesão voluntária dos proprietários dos prédios abrangidos. Embora engenhoso e teoricamente justo, esse modelo exigia um grau elevado de consenso e confiança mútua. Bastava a hesitação ou a recusa de alguns para comprometer o equilíbrio financeiro do empreendimento. Num contexto de propriedade fragmentada e de expectativas económicas desiguais, o interesse individual revelou-se mais forte do que a vantagem colectiva a médio prazo.

A ausência de uma intervenção decisiva da autoridade municipal é outro elemento fundamental. A Câmara surge nos textos como parceira disponível, mas não como promotora principal. A marquise não foi assumida como obra pública prioritária, ficando dependente da iniciativa associativa e da boa vontade privada. Esse posicionamento revelou-se insuficiente para vencer as resistências, mesmo num momento de grande entusiasmo cívico.

Há ainda um factor mais subtil, mas não menos relevante: o tempo político. A República estava então no seu início, os equilíbrios institucionais eram frágeis e muitas energias dispersavam-se por múltiplas frentes. A marquise do Toural foi pensada num momento de grande ambição, mas careceu da continuidade necessária para passar do projecto ao estaleiro.

O silêncio que se seguiu às últimas notícias é, nesse sentido, revelador. Não houve conflito, nem polémica; houve esgotamento. A marquise tornou-se uma dessas ideias que a cidade reconhece como boas, mas que não chega a concretizar. A sua memória sobrevive apenas nos jornais, nos arquivos — e agora, também, nas imagens que permitem vislumbrar o que poderia ter sido.

Vista hoje, a marquise do Toural é mais do que um projecto falhado: é um testemunho de uma Guimarães atenta à modernidade urbana, capaz de pensar o conforto quotidiano e a dignificação do espaço público com ambição e bom gosto. E confirma, uma vez mais, a coerência do pensamento de Luís Augusto de Pina Guimarães: um homem que pensou a cidade tanto nos gestos simbólicos que se realizaram como nas soluções práticas que ficaram por fazer.

Duas simulações de visualização interpretativa (a da esquerda de sul para norte, a da direita, de norte para sul), geradas por IA com base nas especificações do projecto de galeria para o Toural do Capitão Luís de Pina Guimarães. Imagens credíveis do que seria hoje o Toural, se o projecto tivesse caído no museu vimaranense das obras nunca feitas.