Em Guimarães, somos todos historiadores. (Diuner de Guimarães)

Um Ahwa* em guimarães

O Café Oriental

Todas as imagens desta página foram tratadas ou geriadas com ferramentas de inteligência artificial, não correspondendo, necessariamente, à realidade, em todos os seus detalhes.

*Um ahwa é um típico café egípcio — onde, ironicamente, a bebida mais popular é o chá preto doce.

o Toural, a praça onde Guimarães se encontra consigo própria, o Café Oriental entrou como um sinal de época: uma casa nova que não queria apenas servir café e outras bebidas — queria inventar ambiente, impor um certo modo de estar, num espaço para criar conversa. A sociedade exploradora nasce com um programa típico de modernidade urbana (bebidas quentes e frias, tabacos e até jogos lícitos), e instala-se no centro da cidade como resposta a uma falta sentida: um verdadeiro café, um lugar de reunião, confortável e marcante.

A marca do Oriental foi estética. A imprensa descreve-o como espaço moldado à maneira egípcia, com referências ao Antigo Egipto que transformavam o café num campo cenográfico: pirâmides, esfinge, divindades e cenas “orientais” funcionavam como assinatura visual e de promessa de modernidade. A autoria artística do conjunto é creditada ao Capitão Luís de Pina, elogiado como o grande responsável pela “montagem” e pelo gosto do estabelecimento, que teve naquele ano de 1925 um tempo particularmente fértil, nomeadamente com a apresentação da sua proposta de urbanização da zona oriental da cidade.

O Oriental foi oficialmente inaugurado a um domingo, dia 20 de dezembro de 1925 (aqui, a leitura do jornal O Comércio de Guimarães, bem como do folheto então distribuído, mostram que a abertura esteve esteve prevista para o sábado, 19, mas é seguro que aconteceu no domingo). A abertura contou com discursos e a presença de autoridades locais, a imprensa e cavalheiros em destaque no comércio e na indústria

O Oriental depressa se afirmou como mais do que uma cafetaria. Além do consumo, a própria retórica inaugural fala num salão de jogos e até na existência pensada de um segundo espaço para “gente mais modesta”. Em 1931, essa vocação lúdica ganha corpo com o Salão Oriental (parte superior), já com licença do Ministério do Interior e com uma nota de beneficência que revela a ambição de respeitabilidade pública (parte das receitas seria entregue a instituições de apoio a carenciados).

Mas o verdadeiro poder do Oriental foi social. Em 1926, um texto define-o sem rodeios como “um centro de parola”: o café como instituição de conversa, de opinião, de cultura e de debate — um lugar onde se observa a cidade e se comenta o mundo. Não admira que, mais tarde, surja a ideia do Oriental como bastidor de notícias e rumores. E em 1933, a função de veículo de transmissão das novidades torna-se literal: instala-se ali um placard de um grande diário nacional, o Jornal de Notícias, do Porto, fazendo do café um ponto formal de leitura pública e atualidade.

O Oriental foi também palco cultural (há registo de concertos com grande afluência) e serve como suporte e infraestrutura a associações que instalavam no mesmo prédio. Em 1930, a Sociedade de Defesa e Propaganda de Guimarães, e, em 1933, o Vitória Sport Club, reforçando a ideia de que o café e os seus andares eram uma verdadeira casa de instituições.

Como tudo o que se torna central, o Oriental espelha também fraturas. Em 1931 discute-se publicamente o preço da chávena, comparando com Braga. No mesmo ano, um texto regista a entrada da pobreza no espaço elegante (uma criança a pedir esmola no café). E em 1932-33 sucedem episódios de desordem e protestos ligados à sala de bilhares, com referências a tiros e exibição de arma, lembrando que o café era igualmente território de tensões, estatutos e excessos.

Por fim, um detalhe de 1930, diz muito sobre a modernidade do lugar: na lista de assinantes da rede telefónica de Guimarães, inaugurada naquele ano, o Café Oriental aparece com o número 154, confirmando o café como nó de comunicação urbana, útil para recados, negócios e vida social.

Nos primeiros anos da sua existência, o Café Oriental foi, assim, um complexo de modernidade: cenário egípcio no Toural, serviço de ócio e consumo, sala cultural e tribuna de opinião — com a cidade inteira a passar-lhe por dentro.

Café Oriental

Os primeiros anos

Contexto e Fundação

Antes da abertura do Café Oriental, a imprensa local descrevia a inexistência de um café condigno em Guimarães como uma vergonha que fazia os habitantes corar perante os viajantes. A cidade carecia de um espaço moderno, livre dos ronceirismos do mata-bicho em copos de dedal e de mesas de mármore pouco decentes.

Para colmatar esta falha, foi constituída a sociedade Magalhães & Fernandes, Limitada em julho de 1925, tendo como sócios José Joaquim da Costa Magalhães, Francisco da Costa Magalhães, Eugénio Leite Basto e José Fernandes da Costa Abreu. Segundo o Coronel Quadros Flores, o café instalou-se no local onde antes ficava a loja do Magalhães, homem que usava a barba à "passa-piolho" e o seu sócio, Carvalho, "carqueja", ou sejam "suíças", negociando em mercearia por grosso e a retalho.

O café foi inaugurado solenemente em 19 dezembro de 1925 (previsto para dia 19 ou 20), no Toural (Praça de D. Afonso Henriques e Rua da República), com a presença de autoridades civis e militares e representantes da imprensa.

No exterior, o café estava sinalizado por duas pérolas luminosas, onde estava inscrito o nome do estabelecimento.

O fascínio do Egipto

O Café Oriental num tempo em que o encantamento com a descoberta, no Vale dos Reis, Luxor, Egipto, praticamente intacta da tumba de Tutancâmon (Howard Carter, 1922) , revelando um impressionante espólio de artefatos como a máscara de ouro e o trono.

As escavações no túmulo dos Faraós do Egito

Têm-se ocupado ultimamente os jornais das famosas escavações que Lord Carnavon está fazendo em Luxor, no Egipto, e que já deram como resultado a descoberta de incomparáveis pre­ciosidades, na camara exterior de um Faraó, que reinou no Egito há mais de 3.000 anos, com o bonito nome de Tutâncamon.

Um dos aspectos mais interessantes das escavações do Egipto é que vieram confirmar muitos pontos da historia bíblica.

As escavações continuam, mas a semana passada estiveram parados os trabalhos, porque se chegou ao ponto em que será preciso abrir a câmara interior do tumulo e entre o povo circula a ideia de que ali há montões de ouro e por isso torna-se necessário abrir a misteriosa porta diante das autoridades que são esperadas do Cairo. Segundo ilustrações que temos presentes estão no Egipto correspondentes e fotógrafos de jornais de todo o mundo. Nós também lá íamos... se fosse mais perto.

Depois de redigida esta nota lemos que já foi aberta a câmara encontrando-se novas preciosidades.

Voz de Guimarães, 24 de Janeiro de 1923

Ambiente

A atmosfera era descrita como propícia a uma embriaguez sonhadora.

Os detalhes decorativos incluíam motivos exóticos descritos na época como mamadeiras de ópio e potes de ouro fumegantes, sugerindo um ambiente de boudoir oriental, luxuoso e intimista, muito diferente das tascas ou cafés-bilhar mais populares.

Estética neo-egípcia

A estética do Café Oriental foi o seu grande elemento diferenciador, rompendo com o tradicionalismo local.

O projeto de decoração e montagem foi da autoria do Capitão Luís de Pina, descrito pela imprensa da época como um grande artista e um talento de invulgar grandeza.

O interior foi concebido para replicar o ambiente do Antigo Egito. As paredes ostentavam grandes panos com figuras egípcias, faraós e divindades, traçados com linhas corretas e cores vivas. Ao fundo da sala principal, existia um quadro representando as Pirâmides e a Esfinge. A decoração incluía baixos-relevos que lembravam as "cidades mortas dos súbditos de Osíris", criando a ilusão de se estar à entrada de um templo egípcio.

O espaço rejeitava os espelhos típicos das barbearias, apostando num conforto luxuoso que convidava à "embriaguez sonhadora".

Serviços e Inovação

O Oriental posicionou-se como um estabelecimento de vanguarda nos serviços oferecidos.

A base empresarial é a de um café moderno: café, chá e leite à chávena, tabacos, bebidas e jogos lícitos. Era o representante exclusivo em Guimarães do café "A Brasileira".

Além do salão principal luxuoso, o estabelecimento disporia de um salão de jogos com entrada pela Porta da Vila.

Na iideia dos empreendedores estava também um projecto socialmente reveladoa: um segundo café para gente mais modesta e mais envergonhada — também com com entrada pela Porta da Vila.

Cepticismo e deslumbre

A reação inicial da cidade oscilou entre o ceticismo e o deslumbramento. Alguns esperavam encontrar simples momices, mas acabaram rendidos à execução artística que consideraram perfeitas reproduçõe

. Para os cronistas da época, o estilo do café representava uma espécie de boémia do espírito ou futurismo, provando que Guimarães podia ser cosmopolita sem sair do Toural. O facto de misturar a grandiosidade egípcia com miúdos motivos de adorno inspirados nos esgrafitos portugueses mostrava a inteligência de Luís de Pina em adaptar o exótico ao gosto local.

Equipamentos

O Oriental possuía bilhares e promovia campeonatos da modalidade.

Em 1930, investiu num aparelho para servir cerveja gelada (e ironicamente cogitou-se servir cerveja quente no inverno para escoar stock).

Em 1931, abriu o "Salão Oriental" no andar superior, dedicado a divertimentos e espetáculos.

Em 1933, adquiriu um aparelho de rádio, da marca Philco, para melhorar o conforto dos clientes.

Espaço de sociabilidade

O Café Oriental tornou-se rapidamente a "sala de visitas" da cidade e o centro da vida social vimaranense.

Era o local para "ver e ser visto". Frequentado pela elite ("cavalheiros elegantes"), era palco de galanteios às senhoras que passavam no Toural e de discussões sobre modas e literatura.

Funcionava como um ponto nevrálgico da comunidade. Servia para entrega de perdidos e achados , inscrições em gincanas e local de afixação de placards de notícias de jornais como o Jornal de Notícias.

Realizavam-se concertos, como os do guitarrista Júlio Silva em 1928, que esgotaram a lotação.

Conversa com vista para o Toural

O Café Oriental não era um espaço politicamente neutro; nasceu de uma burguesia comercial com fortes laços ao Partido Republicano Português (PRP). Costumo ouvir, pela voz de quem o conheceu em pleno funcionamento, que era o local de reunião dos democratas de Guimarães, enquanto o Café Toural, ali ao lado, acolheria a Guimarães mais conservadora.

José Fernandes da Costa Abreu, um dos quatro sócios fundadores e gerente, era um quadro ativo do republicanismo local. O seu obituário, publicado em 1928 no jornal Velha Guarda, defensor da causa republicana, identifica-o explicitamente como devotado correligionário e antigo vogal substituto da Comissão Municipal do Partido Republicano Português. O seu funeral foi, aliás, um acto político, contando com a representação oficial do partido.

A ligação dos proprietários do café à causa republicana explica a simpatia com que o jornal republicano A Razão olhava par o café, descrevendo os seus fundadores como vimaranenses de arrojado empreendimento que lutavam contra os velhos e poeirentos costumeiras.

Uma pedrada no charco

No seus primeiros anos, o Café Oriental não foi apenas um estabelecimento comercial; foi um melhoramento urbano que introduziu uma estética cosmopolita (o exotismo egípcio), com um toque da evasão que marcou a década de 1920, numa cidade tradicional.

Foi o palco onde Guimarães viveu a queda da Primeira República, o (re)nascimento de instituições do Vitória Sport Club e uma, ainda que incipiente, modernização dos costumes sociais.

Se o golpe que pôs fim à Primeira República, instaurando uma ditadura militar, em 28 de Maio de 1926, teve como ponto de partida as ruas e quartéis de Braga, em Guimarães teve como caixa de ressonância emocional e política o Café Oriental. Aberto há apenas seis meses, o estabelecimento não era apenas um local de lazer, mas o verdadeiro barómetro da cidade, onde a ansiedade republicana e os boatos revolucionários se misturavam com o fumo do tabaco e o aroma do café de A Brasileira.

Os relatos do jornal republicano A Razão permitem-nos reconstruir a atmosfera febril vivida no Oriental durante o golpe militar. O café transformou-se numa espécie de vigília cívica permanente. Os rumores, muitas vezes contraditórios, iam e vinham. À porta do café, formavam-se e desfaziam-se grupos de cidadãos expectantes, de narizes erguidos para o céu, farejantes e curiosos, tentando confirmar se os aviões que passavam estavam a lançar proclamas sobre a cidade.

Pela madrugada adentro, tiravam-se horas ao sono. Às duas da manhã, enquanto o relógio da Colegiada tocava, o Oriental regurgitava de gente". A discussão continuava animada e ninguém recolhia a casa. Quando bateram as três do novo dia, o calor patriótico ainda mantinha os curiosos despertos, discutindo se o general Gomes da Costa tinha ido oferecer o barrete cardinalício ao arcebispo ou se este tinha sido pescado por um aeroplano.

Ouviam-se desabafos dramáticos, entre o medo e a esperança. Um democrata convicto exclamava: Se o António Maria [da Silva, o chefe do Governo em funções] não acalmar os revoltosos, até corto a cabeça e dou ao diabo o P. R. Português. Outros, mais optimistas, como um industrial, iam duvidando das intenções dos revoltosos, porque Braga não faz nada contra Lisboa.

Um dos aspetos mais interessantes que ressaltam da leitura dos jornais sobre o ambiente em Guimarães aquando do golpe do 28 de Maio, é a ambiguidade inicial com que o meio republicano, reflectido no próprio ambiente do café, recebeu a Ditadura. Entre os republicanos vimaranenses, percebe-se alguma ilusão e esperança na “ordem” que os golpistas se propunham restaurar. Ironicamente, ao primeiro embate, muitos republicanos frequentadores do Oriental viam o 28 de Maio, não como o fim da República, mas como uma necessidade imperiosa para pôr a casa em ordem, limpar a corrupção e pôr termo aos governos fracos. O cronista Dório, escrevendo em junho de 1926, acreditava que o movimento era nacional e republicano e recusava a ideia de que descambasse numa ditadura velha no estilo ou num fascismo italiano.

Não tardaria a desenganar-se.

O 28 de Maio visto do Café Oriental
A noite em que Guimarães não dormiu
café oriental

Visita guiada

Entremos no Café Oriental.

O nosso guia será o Capitão Luís de Pina Guimarães, através da sua memória descritiva do projecto, que nos confirma que o Café Oriental foi concebido como uma obra de arte total, onde a arquitetura, a pintura e o mobiliário se fundiam para criar uma ilusão perfeita.

Uma instalação imersiva avant la lettre.

A Entrada

Ao cruzarmos a soleira do Café Oriental, deixamos o século XX e recuamos 5000 anos, entrando num santuário dedicado à civilização que, segundo o autor, fez “fulgir a Arte” muito antes da Grécia.

A nossa viagem começa logo nas Portas da Rua. Não são portas comuns, mas uma recriação das entradas do pavilhão real de Ramsés III (XX Dinastia), inspiradas nas ruínas de Medinet-Habu, na margem esquerda do Nilo. Ao passarmos por elas, entramos no domínio dos Faraós.

As Colunas

Já no interior, o olhar é imediatamente atraído para a Coluna Central, o pilar que sustenta a estrutura. Para disfarçar a sua função estrutural, Luís de Pina transformou-a numa cópia exata (embora reduzida à escala) das colunas gigantescas da Sala Hipostila do Templo de Karnak.

O capitel (o topo da coluna), tem a forma de uma flor de lótus aberta. No templo original, estas colunas eram tão largas que, no seu topo, podiam sentar-se 100 homens.

À volta, as colunas mais pequenas, que sustentam o patamar e as escadas, imitam as colunas laterais da mesma sala de Karnak, mas com o capitel fechado, em “botão de lótus”.

O Tecto: O Céu do Egito

Se olharmos para cima, o teto principal transporta-nos para os templos tebanos. Pintado de azul profundo, está coberto de estrelas e de grandes abutres de asas abertas. Estas aves sagradas seguram nas garras o selo da eternidade e a pluma da realeza. No teto inferior (sob a galeria), a decoração muda para rosetas e escaravelhos alados (o deus Khepri), que rolam o “ovo do sol”, simbolizando a vida que se renova perpetuamente.

O Balcão e o Fundo da Sala

Dirigimo-nos ao fundo, onde o balcão de atendimento foi desenhado como se fosse o pequeno Templo da Ilha Elefantina (da época de Amenófis III).

Sobre o balcão, erguem-se pequenas colunas curiosas com quatro capitéis sobrepostos. São os pilares Djed, que simbolizam a estabilidade e as quatro colunas que sustentam o céu.

Mesmo o Lavatório e o Espelho não foram esquecidos: estão emoldurados por uma decoração copiada de um peitoral de ouro de Ramsés II.

Os Painéis: Uma Lição de História nas Paredes

As paredes funcionam como um museu, com grandes pinturas (panneaux) que relatam a glória do império:

O Panteão

Vemos o faraó Amenófis III a ser apresentado por Hórus ao deus supremo Amon-Rá.

Logo a seguir, Seti I presta homenagem a Amon e ao deus criador Khnum.

Num nicho menor, desenrola-se o dramático Julgamento de Osíris. A cena, copiada do papiro funerário da Rainha Maatkare, mostra o coração a ser pesado perante Anúbis (o deus chacal) e Thot (o escriba), sob o olhar atento de Osíris e Ísis.

Paisagem Eterna

A perspetiva da sala culmina numa vista das Pirâmides de Gizé e da Esfinge. É aqui que o Capitão Pina evoca a célebre frase de Napoleão Bonaparte: “Soldados! Do alto daquelas pirâmides quarenta séculos vos contemplam!”.

A Guerra e a Paz

Um painel vibrante retrata a Batalha de Kadesh, onde o jovem Ramsés II, sozinho no seu carro de guerra, enfrenta e derrota o exército dos Hititas (o “Rei Cheta”).

Outro painel mostra a própria Sala Hipostila de Karnak. É um jogo de espelhos inteligente: o visitante vê na pintura as mesmas colunas que tem fisicamente a seu lado no café, criando um “confronto flagrante” entre a cópia e o original.

Detalhes

Neste surpreendente café egípcio, nada foi deixado ao acaso.

Os bancos onde os clientes se sentam são separados por esfinges, e as mesas de apoio imitam pequenos pórticos.

Sobre todas as portas e janelas, paira o Disco Solar Alado ladeado por duas serpentes sagradas (Ureus), as protetoras do Alto e Baixo Egito.

A parte inferior das paredes imita as fachadas das casas de Mênfis, decoradas com folhas de lótus.

Os anfitriões

Enquanto deambulamos pela sala, sentimos o peso de dois olhares vindos de tempos muito distintos. O Capitão Pina não quis apenas relevos nas paredes; quis a presença física dos antigos habitantes do Nilo através de duas réplicas de estátuas célebres:

Numa posição de destaque, encontramos a cópia da estátua de Ramsés II (XIX Dinastia), cujo original repousa no Museu de Berlim. O Faraó apresenta-se sentado no seu trono, com uma serenidade que atravessou 32 séculos. Se reparar na base do trono, verá gravadas as plantas heráldicas (o papiro e o lótus) que simbolizam a "união dos dois Países" (o Alto e o Baixo Egito), lembrando que ali, naquele café, reina a harmonia.

Não muito longe, encontramos uma figura feminina de beleza rara. É Nofret, uma princesa da IV Dinastia (4.700 anos atrás). A cópia foi tirada da famosa estátua de calcário pintado do Museu do Cairo, considerada uma "obra-prima pela sua beleza escultural". Com o seu olhar vivo e cores preservadas, ela traz uma humanidade e uma elegância feminina que contrastam com a rigidez da arquitetura envolvente.

memória descritiva

Explicação do Café Oriental

Café Oriental

(Egípcio)

INAUGURADO EM 19— XII — 1925

CAFÉ ORIENTAL

ESBOÇO EXPLICATIVO

PRELIMINARES

O estilo adoptado neste estabelecimento diz respeito ao antigo Egipto, através de 5.000 anos duma civilização brilhante, atestada pelas ruínas dos seus grandiosos monumentos, pelas obras de arte dispersas pelos museus. e até pelas últimas investigações nos túmulos dos seus reis (faraós).

A disposição arquitectónica e os vários motivos decorativos estão combinados de modo a formar um conjunto harmónico no recinto a aproveitar, dando-se aos coloridos a ilusão do baixo-relevo, que era gravado na pedra.

É um pequeno repositório por onde perpassam cinquenta séculos de grandeza dum povo que vinte e seis dinastias dominaram, mas à custa de cuja escravidão a Arte fulgiu até à perfeição máxima atingida na genial Grécia.